Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 15 nº 3 - Jul/Set - 2018

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Páginas 111 a 118


Psicologia e adolescentes com diabetes mellitus tipo 1: uma revisão sistemática

Psychology and adolescents with diabetes mellitus type 1: a systematic review

Psicología y adolescentes con diabetes mellitus tipo 1: una revisión sistemática


Autores: Laís Claudino Moreira Ribeiro1; Renata Lira dos Santos Aléssio2; Brena Souza Almeida3

1. Mestranda em Psicologia pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Especialista em Saúde Hospitalar pela Universidade Federal da Paraíba(UFPB). Recife, PE, Brasil
2. Doutorado em Psicologia pela Université de Provence Aix-Marseille I, Aix-Marseille I, França. Professora Adjunta pelo Departamento de Psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Recife, PE, Brasil
3. Graduanda em Psicologia pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Recife, PE, Brasil

Laís Claudino Moreira Ribeiro
Rua Deputado José Mariz, nº 690, Tambauzinho
João Pessoa, PB, Brasil. CEP: 58042-020
(laiscmoreira@hotmail.com)

Submetido em 22/02/2018
Aprovado em 05/04/2018

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Scielo

Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Diabetes Mellitus, adolescente, doença crônica, psicologia.
Keywords: Diabetes Mellitus, adolescent, chronic disease, psychology.
Palabra Clave: Diabetes Mellitus, adolescente, enfermedad crónica, psicología.

Resumo:
OBJETIVO: Este artigo apresenta uma revisão bibliográfica com o objetivo de compreender como os adolescentes com Diabetes mellitus tipo 1 (DM1) vem sendo estudados a partir do campo de saber da psicologia.
FONTES DE DADOS: A revisão ocorreu por meio da busca de artigos eletrônicos em bases de dados indexadas (Scielo, Pepsic e BVS). A pesquisa foi realizada utilizando-se os descritores: "adolescentes", em qualquer campo da produção e "diabetes" no título.
SÍNTESE DOS DADOS: O levantamento bibliográfico resultou em 134 artigos, onde 14 foram selecionados considerando os critérios de inclusão e exclusão. Os trabalhos foram analisados em função dos conceitos utilizados para a fundamentação, o objetivo, além do delineamento metodológico e principais resultados observados. Ao longo das leituras, nota-se que os artigos expressam como relevante os aspectos biopsicossociais que envolvem a pessoa em adoecimento. Além disso, a caracterização da adolescência é um dado pertinente, onde essa fase é percebida como sendo responsável por tensões que podem dificultar o tratamento da diabetes.
CONCLUSÃO: A partir de conceitos como resiliência, qualidade de vida, autoestima, enfrentamento da doença, entre outros, os trabalhos analisados debruçam-se sobre a vivência dos adolescentes com DM1. As maiores dificuldades dos adolescentes estão relacionadas à alimentação e aplicação de insulina. O suporte social, vinculação afetiva e autoestima foram apontados como aspectos que facilitam ao adolescente sobrepujar a situação de adoecimento.

Abstract:
OBJECTIVE: This article presents a systematic review with the objective of understanding how adolescents with Diabetes mellitus type 1 (DM1) have been studied from the field of psychology.
DATA SOURCE: The review took place through the search of electronic articles in indexed databases (Scielo, Pepsic and BVS). The research was carried out using the descriptors: "adolescents" in any field of production and "diabetes" in the title.
DATA SYNTHESIS: The bibliographic survey resulted in 134 articles, where 14 were selected considering the inclusion and exclusion criteria. The articles were analyzed according to the concepts used for the fundaments, objective, besides the methodological outline and main results observed. Throughout the readings, it is noticed that the articles express as relevant the biopsychosocial aspects that involves ill people. In addition, the characterization of adolescence is a pertinent fact, where this phase is perceived as being responsible for tensions that may hinder the treatment of diabetes.
CONCLUSION: Based on concepts such as resilience, quality of life, self-esteem, coping with the disease, among others, the analyzed articles are focused on the experience of adolescents with DM1. The greatest difficulties of the adolescents are related to the feeding and application of insulin. The social support, affective bonding and self-esteem were pointed out as aspects that facilitate the adolescent to overcome the illness situation.

Resumen:
OBJETIVO: Este artículo presenta una revisión bibliográfica con el objetivo de comprender cómo los adolescentes con Diabetes mellitus tipo 1 (DM1) vienen siendo estudiados a partir del campo de saber de la psicología.
FUENTES DE DATOS: La revisión ocurrió por medio de la búsqueda de artículos electrónicos en bases de datos indexadas (Scielo, Pepsic y BVS). La investigación fue realizada utilizando los descriptores: "adolescentes", en cualquier campo de la producción y "diabetes" en el título.
SÍNTESIS DE LOS DATOS: El levantamiento bibliográfico resultó en 134 artículos, donde 14 fueron seleccionados considerando los criterios de inclusión y exclusión. Los trabajos fueron analizados en función de los conceptos utilizados para la fundamentación, el objetivo, además del delineamiento metodológico y principales resultados observados. A lo largo de las lecturas, se nota que los artículos expresan como relevante los aspectos biopsicosociales que involucran a la persona en enfermedad. Además, la caracterización de la adolescencia es un dato pertinente, donde esa fase es percibida como responsable por tensiones que pueden dificultar el tratamiento de la diabetes.
CONCLUSIÓN: A partir de conceptos como resiliencia, calidad de vida, autoestima, enfrentamiento de la enfermedad, entre otros, los trabajos analizados se centran en la vivencia de los adolescentes con DM1. Las mayores dificultades de los adolescentes están relacionadas con la alimentación y la aplicación de insulina. El apoyo social, vinculación afectiva y autoestima fueron apuntados como aspectos que facilitan al adolescente sobrepujar la situación de enfermedad.

INTRODUÇÃO

As doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) acometem um número maior de pessoas a cada ano. De acordo com a Organização Mundial de Saúde1, estima-se que em 2014, 422 milhões de pessoas, entre crianças, adolescentes, adultos e idosos, viviam com diabetes mellitus (DM) no mundo. A perspectiva é de que esse número aumente para 642 milhões em 2040. Dentro desse contexto, o Brasil é o terceiro país em número de crianças e adolescentes diagnosticados com diabetes mellitus tipo 1 (DM1)2.

O DM1 caracteriza-se pela deficiência na produção de insulina pelo pâncreas em decorrência da destruição das células beta, tornando o indivíduo insulinodependente, sendo mais comum o surgimento na infância e na adolescência. Além disso, este tipo de DM, em geral, apresenta-se de forma abrupta e com tendência a hiperglicemia acentuada, o que pode desencadear com facilidade um quadro de cetoacidose caso haja a presença de outro tipo de estresse.3

O diagnóstico de DM1 demanda do sujeito mudanças de hábitos a fim de realizar o controle glicêmico, desse modo inicia-se a medição da glicemia e aplicação da insulina, bem como mudanças relacionadas à alimentação e à prática de atividades físicas. Segundo Vieira e Lima4, o cotidiano das crianças e adolescentes com doença crônica é modificado exigindo uma readaptação à situação, portanto esse processo acontece em detrimento da complexidade da doença e da capacidade de manejo da criança ou adolescente.

Os adolescentes com DM1 são estudados a partir de diferentes disciplinas, e no caso da psicologia, as pesquisas utilizam conceitos como resiliência, ansiedade, suporte social, enfrentamento da doença, qualidade de vida, entre outros. Em revisão sistemática realizada por Perez, Alves e Dell'Aglio5 identificou-se que o suporte social é um importante fator de proteção no enfrentamento da DM1 em adolescentes. Assim, pode reverberar no manejo da doença, no controle metabólico e na adesão ao tratamento. Além disso, o suporte social também pode se relacionar de maneira positiva com a qualidade de vida, autoestima, autoeficácia, autoimagem e bem-estar.

Considerando a categoria social a qual este estudo debruçou-se, o adoecimento crônico adentra a realidade dos adolescentes perpassando seu desenvolvimento enquanto uma influência não-normativa. O paradigma lifespan compreende o desenvolvimento enquanto um processo de mudanças contínuo, multidimensional e multidirecional o qual sofre influências de ordem biológica e histórico cultural, podendo ser de natureza normativa ou não-normativa, considerando os ganhos e perdas no decorrer do processo e a interação do sujeito com a cultura6. As influências normativas estão relacionadas tanto a eventos biológicos que ocorrem de forma previsível em uma determinada faixa etária, quanto a eventos regulados pela história, de modo que uma geração histórica tem seus comportamentos implicados pelo acontecimento. A influência não-normativa diz respeito a eventos imprevisíveis que podem vir a acontecer na vida do indivíduo, seja de ordem biológica ou social. Estes eventos podem se configurar como desafios ou incertezas e o impacto disso no sujeito vai depender do significado atribuído por ele7.

De acordo com Papalia e Feldman7, a segmentação do ciclo de vida em períodos, como infância e adolescência, é uma construção social que se circunscreve em um determinado contexto histórico cultural de uma sociedade. Isto porque, efetivamente, não há um consenso sobre como definir o momento da passagem de um período para outro. Dessa forma, pode-se dizer que a noção de adolescência emerge como um fenômeno da sociedade ocidental contemporânea, sendo produto de transformações econômicas e sociais ocasionadas pela Revolução Industrial8.

A adolescência é reconhecida enquanto uma fase de transição da infância para a vida adulta, tendo sido explicada por diversas perspectivas, seja a partir de uma ênfase biológica, psicológica, social ou histórico-cultural. A rede de sentidos que envolve este período do desenvolvimento humano tem sido construída ao longo da história, extrapolando as delimitações cronológicas. Outrossim, a cultura e as relações sociais perpassam o modo como esse processo de transição ocorre, não existindo um padrão para tal8.

Este estudo teve como objetivo compreender como os adolescentes com DM1 vem sendo estudados a partir do campo de saber da psicologia. A psicologia muito tem contribuído nas últimas décadas para o campo da saúde, favorecendo uma visão holística sobre o sujeito. Considerando o alcance populacional da DM1 no decorrer do tempo, se faz necessário compreender de que maneira a psicologia tem produzido conhecimento a fim de subsidiar melhorias para esse grupo, e agrupar essas informações para assim analisá-las criticamente.


MÉTODO

Este estudo procurou responder a seguinte questão: como adolescentes com diabetes mellitus tipo 1 têm sido estudados a partir do campo de saber da psicologia?

A revisão sistemática aconteceu no mês de junho de 2017, por meio da busca de artigos eletrônicos em bases de dados indexadas (Scielo, Pepsic e BVS). A pesquisa foi realizada utilizando-se os descritores: "adolescentes", em qualquer campo da produção e "diabetes" no título, não houve filtro correspondente ao ano de publicação. A seleção dos artigos ocorreu por meio de três etapas, primeiramente pela leitura dos títulos, em seguida dos resumos e por fim da leitura completa do material. Para a seleção dos artigos foram elaborados critérios de inclusão e exclusão.

Compõem os critérios de inclusão: ser uma pesquisa desenvolvida com adolescentes com diabetes mellitus tipo I, se propor a investigar aspectos psicológicos na adolescência com diabetes mellitus tipo I, ter sido realizada no Brasil. Foram critérios de exclusão: os artigos em duplicidade, artigos de revisão de literatura, estudos que fugiam ao tema da revisão e que não possuíam texto em português.

Os artigos foram analisados em função dos conceitos utilizados para fundamentar as investigações, principais objetivos, delineamento metodológico e principais resultados observados.


RESULTADOS

A busca resultou em 134 artigos. Após a leitura dos títulos e resumos, considerando os critérios de inclusão e exclusão, 14 trabalhos fizeram parte desta revisão, o primeiro publicado em 2003 e o último em 2016. A figura 1 organiza os artigos por ordem cronológica de publicação.


Figura 1. Seleção das produções para revisão sistemática



Sete estudos foram publicados em revistas da área de psicologia9,10,11,12,13,14,15 e sete da área de enfermagem16,17,18,19,20,21,22. Os artigos foram publicados em cinco periódicos na área de psicologia com qualis A19,15, B211,12,14, B313 e um não foi identificado,10 e em cinco na área da enfermagem, sendo os qualis A121,22, A216,17,19,20, e B118. As informações sobre o qualis das revistas dizem respeito à última avaliação trienal da Capes para a área de Psicologia.

O período da adolescência foi abordado em 12 trabalhos como uma fase de transição permeada por conflitos e imaturidade10,11,12,13,14,15,16,17,19,20,21,22. Seis artigos13,16,17,18,19,22 propuseram compreender como os adolescentes com DM1 vivenciam e/ou experienciam o adoecimento, para isso buscaram suporte teórico no interacionismo simbólico17,22 e no conceito de identidade13. Em oito trabalhos9,10,11,12,14,15,20,21 os autores debruçaram-se sobre o modo pelo qual os adolescentes lidam com a DM1, utilizando os conceitos de: resiliência9, ansiedade14, enfrentamento da doença15, qualidade de vida e autoestima20, psicanálise11, aspectos psicossociais12 e itinerário terapêutico21.

Nos artigos analisados predominaram pesquisas do tipo qualitativas9,12,13,16,17,18,19,21,22 enquanto apenas dois estudos eram quantitativos14,20 e três quanti-quali10,11,15. Os participantes dos estudos analisados eram de ambos os sexos e com idades variando entre 9 e 21 anos. Três dos trabalhos16,18,20 justificaram a escolha da faixa etária considerando o disposto pela Organização Mundial de Saúde16 e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente18,20, os demais não apresentaram justificativa. Um artigo apresentou critérios, porém não identificou se são de inclusão ou exclusão2,1 doze dispuseram apenas os critérios de inclusão9,10,11,12,13,14,15,16,17,18,20,22 e um apontou os critérios de inclusão e exclusão19. Os critérios remetidos pelos trabalhos foram: os participantes deveriam apresentar condições cognitivas para responder à pesquisa9,10,20, estar em tratamento há no mínimo um ano13,17,18,22, não apresentar complicações crônicas11, apresentar dificuldade para seguir o tratamento21 e aceitar participar da pesquisa15,16. Apenas um dos artigos não faz menção aos aspectos éticos que devem ser seguidos em pesquisa com seres humanos13.

No tocante à coleta de dados, as pesquisas qualitativas utilizaram entrevista semiestruturada9,12,13,16,17,18,19,22, entrevista em profundidade21, observação de campo21 e mapa dos cinco campos9. As pesquisas quantitativas aplicaram Instrumento de Qualidade de Vida para Jovens com Diabetes e instrumento de autoestima de Rosemberg20 e Inventário de Ansiedade traço-estado14. As pesquisas quanti-quali utilizaram entrevista para caracterização clínica10, parâmetros cardiovasculares e metabólicos10, avaliação antropométrica10, aplicação de questionário sobre dificuldades para seguimento das condutas terapêuticas10 e Desenho da Figura Humana e da Pessoa com Diabetes11, mapeamento de atividades cotidianas15 e entrevista semiestruturada15.

Nove pesquisas foram desenvolvidas com adolescentes com DM1 em serviços de saúde9,10,15,16,18,19,20,21,22, três com adolescentes em serviços de saúde e associações de pessoas com diabetes11,14,17, uma com adolescentes em acampamento de férias12 e um trabalho não especificou local de coleta de dados13. Os três estudos comparativos entre adolescentes com e sem DM1 buscaram os adolescentes sem DM1 em escolas, instituições assistenciais e através de indicações11,14,15. Oito artigos continham informações sobre o período e a cidade onde os dados foram coletados10,15,16,17,18,19,22, três constavam apenas a cidade12,20,21 e em três não foram descritas essas informações9,13,14.

Os trabalhos qualitativos analisaram os dados através de categorização13,17,22, análise de conteúdo9,12,16,18,19,21. Os artigos quantitativos utilizaram-se de estatística descritiva14,20, testes paramétricos14,20 e testes não paramétricos.14 Os trabalhos quanti-quali utilizaram o gráfico de crescimento e desenvolvimento10, categorização10, estatística descritiva10, testes não paramétricos11,15 e análise de conteúdo15.

Quanto aos principais resultados apresentados pelos artigos selecionados para esta revisão, Pires10, Alencar16 e Fragoso18, identificaram que as dificuldades enfrentadas pelos adolescentes com DM1 referiam-se a enfrentar o diagnóstico, a aplicação de insulina, a manter uma alimentação saudável e a necessidade de mudança do estilo de vida. Alencar et al.16 e Almino, Queiroz e Jorge19 salientam ainda que essas dificuldades podem desencadear atitudes negativas, sentimentos de medo, insegurança e revolta. Em contrapartida, o suporte social foi destacado como fator importante no enfrentamento da doença por Heleno et al.12, Almino, Queiroz e Jorge19 e Cassarino-Perez e Dell-Aglio9. Esses autores observaram que o suporte social, bem como a vinculação afetiva, autoestima, otimismo e altruísmo atuam como fator de proteção contribuindo para processos de resiliência nos adolescentes com DM1.

Para lidar com as mudanças advindas do tratamento da DM1, Fragoso et al.18 apontaram estratégias de enfrentamento utilizadas pelos adolescentes estudados, estas compreendiam enfrentar a rotina, aprender a lidar com as contingências e seguir o tratamento corretamente. Alencar et al.16 observaram que com o tempo os adolescentes incorporam as mudanças impostas pelo tratamento da DM1 e passam a lidar com a doença com naturalidade. Nesse caminho, Imoniana13 identificou que alguns adolescentes consideravam que a rotina não era afetada devido a DM1. A qualidade de vida e autoestima foram avaliadas positivamente pelos adolescentes do estudo de Novato, Grossi e Kimura20.

Os estudos apresentados por Ballas, Alves e Duarte11, Santos e Enumo15 e Ballas, Alves e Duarte14 realizaram análises comparativas entre grupos de adolescentes com e sem DM1. Os resultados encontrados por esses estudos apontaram que não houve diferenças estatisticamente significativas no que diz respeito a traços de ansiedade, atividades cotidianas, desenho da figura humana e pessoa com diabetes.


DISCUSSÃO

Observou-se um número de publicações semelhante em revistas da área de enfermagem e psicologia, o que denota o interesse dos profissionais da saúde em compreender o adolescente em adoecimento considerando os aspectos biopsicossociais que o envolvem.

Os artigos apresentam a importância do suporte social e da vinculação afetiva no enfrentamento da doença, funcionando também como fatores de proteção. Em revisão da produção científica sobre resiliência, o suporte social esteve associado a todas as pesquisas encontradas. No tocante ao conceito de resiliência abordado nos trabalhos, apenas um encontrava-se no campo dos processos psicológicos, os demais no campo da enfermagem. Os artigos apontaram que o período de transição dos cuidados parentais para autocuidado caracterizou-se como um fator que pode ser determinante nos processos de resiliência posteriores. Identificou-se que o aumento da autonomia estava diretamente associado à piora do controle metabólico, colocando em projeção uma relação tênue entre os fatores de proteção como, suporte social e autonomia e os fatores de risco como, baixa adesão ao tratamento e aumento da glicemia23.

A adolescência emerge nos estudos como uma etapa "problemática", permeada por tensões que podem dificultar o tratamento do diabetes. Por exemplo, Pires10 afirmou que os conflitos emocionais característicos deste período podem levar à má adesão ao tratamento, visto que o diagnóstico do DM1 agrava a sensação de não pertencimento e exclusão vivida pelos adolescentes. Segundo Leal e Facci24, a adolescência aos poucos consolidou-se como uma fase da vida, um fenômeno universal, sendo estudada a partir de uma perspectiva individual associada à maturidade biológica.

Identificou-se então uma concepção cristalizada da adolescência em doze destas publicações, uma visão negativa desta etapa de vida que parece se ancorar na vida adulta como referencial de estabilidade. Berni e Roso25 afirmaram que a adolescência apresenta particularidades em relação aos contextos de vida e aos aspectos culturais e temporais, por isso, os estudos devem ser cautelosos nas definições que se propõem universais e estáticas. No caso dos adolescentes com DM1, o adoecimento crônico emerge enquanto uma influência não-normativa, considerando que não faz parte do desenvolvimento biológico natural do indivíduo, e assim demanda uma reorganização do sujeito para que se adapte a esta nova condição.

Os trabalhos analisados nessa revisão, de forma geral, trouxeram aspectos dessa fase do desenvolvimento humano, mas não trabalharam com a conceituação e as representações desta pelos diferentes campos do saber. Partindo da concepção segundo a qual a adolescência é um campo polissêmico, considerou-se importante a desconstrução da perspectiva cristalizada sobre ela e a problematização de sua conceituação, devido as suas particularidades a nível biológico, psicológico, social e histórico. Ao trazer este olhar crítico, os profissionais podem atentar para as redes de sentido que perpassam cada indivíduo e não reduzir os problemas enfrentados ao longo do tratamento como exclusivo do período da adolescência.

Percebeu-se nos artigos selecionados que é atribuída ao período da adolescência a responsabilidade por comportamentos de oposição, conflitos ou não-aceitação da doença que venham a surgir. Não se leva em consideração que o desenvolvimento humano é marcado por um processo contínuo de mudanças, incluindo ganhos e perdas, como também pela interação do sujeito com a cultura6. Além disso, deve-se considerar o adoecimento crônico que repentinamente perpassa a vida do sujeito sendo lhe necessário atribuir novos significados as suas vivências. Dessa forma, o olhar estigmatizante sobre o adolescente é também um olhar descontextualizado sobre o indivíduo.

Os artigos que se propuseram a analisar as experiências e vivências dos adolescentes com DM1 encontraram resultados semelhantes, esses foram: dificuldades em relação a seguir a dieta e fazer a medição e aplicação da insulina, medo de complicações decorrentes da doença, questões relacionadas a aceitação e não-aceitação, importância do suporte familiar, dos amigos, dos profissionais da saúde e adaptação às mudanças. Damião, Dias e Fabri17 destacaram que a forma com que o sujeito lida com a doença não é linear, bem como a intensidade pode variar, ou seja, ao longo do percurso o adolescente pode experienciar o adoecimento de diferentes maneiras. Compreende-se então que se um adolescente tiver aderido ao tratamento em determinado momento, isso não significa que este permanecerá no tratamento. Diante disso se faz necessário o acompanhamento profissional a fim de fortalecer os fatores protetores que circundam o adolescente.

Considerando os estudos aqui reunidos, doze foram realizados com adolescentes assistidos por serviços de saúde da rede pública, o que indica que o público pesquisado possivelmente circunscreve-se em uma classe socioeconômica específica. Apesar de não ser um dado discutido em todos os artigos, é possível que o contexto em que esses adolescentes estão inseridos tenha implicações na vivência do adoecimento, na condução do tratamento, inclusive diferenciando-os de adolescentes de outras classes sociais. Sendo assim, é uma variável que pode ser ponderada a fim de produzir um conhecimento sensível à dinâmica social que perpassa as questões individuais do sujeito. Ademais, é um dado que deve ser considerado ao comparar esses resultados com outros estudos.

Foi possível observar nos trabalhos a ausência de conceituação acerca dos constructos analisados no que se refere ao aporte teórico utilizado por parte dos estudos que se propuseram a analisar as experiências e vivências dos adolescentes com DM1. Dessa forma, as discussões realizadas a partir dos resultados delineiam contornos frágeis em relação aos objetivos propostos.

Os artigos selecionados para esta revisão careciam de informações na seção do método, como por exemplo a ausência de informações referentes à justificativa para determinação da faixa etária dos participantes dos estudos, ao período e cidade em que os dados foram coletados, aos aspectos éticos de pesquisa com seres humanos, além de falta de clareza quanto à denominação dos critérios de inclusão e exclusão utilizados. O campo de análise de dados apresentou- se frágil ao passo que havia descrições pouco específicas e ausência de referência nas informações expostas.

De modo geral, as lacunas apresentadas na metodologia dos trabalhos trazem algumas implicações como, dificuldade de compreensão do contexto em que os resultados foram encontrados e analisados, dessa forma, a ausência de informações repercute na confiabilidade dos dados e consequentemente no conhecimento que se tem produzido na área. Bem como, para os estudos quantitativos os mesmos não se tornam passíveis de replicação, considerando que para isso é necessária uma descrição detalhada e completa de cada passo metodológico. A partir disso, percebeu-se a necessidade de maior rigor científico na produção de conhecimento sobre a temática.


NOTA

Suporte Financeiro: Bolsa CAPES Mestrado.


REFERÊNCIAS

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