Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 15 nº 2 - Abr/Jun - 2018

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Páginas 39 a 48


Associaçao entre gravidez adolescente e o Indice Mineiro de Responsabilidade Social no Estado de Minas Gerais, Brasil

Association between Adolescent Pregnancy and the Social Responsibility Index in the State of Minas Gerais, Brazil

Asociación entre embarazo adolescente y el Indice Minero de Responsabilidad Social en el Estado de Minas Gerais, Brasil


Autores: Daiane Leite da Roza1; Maria de Fátima Rodrigues Pereira de Pina2; Carla Maria Teixeira de Oliveira3; Edson Zangiacomi Martinez4

1. Pós-Doutoranda do Programa de Pós-Graduaçao em Saúde na Comunidade - Departamento de Medicina Social - Universidade de Sao Paulo. Doutora e Mestre em Ciências pela Faculdade de Medicina de Ribeirao Preto da Universidade de Sao Paulo. Ribeirao Preto, SP, Brasil
2. Doutora em Engenharia Biomédica (2001) na Universidade Federal do Rio de Janeiro.Pesquisadora do Laboratório de Informaçao em Saúde, do Instituto de Comunicaçao e Informaçao Científica e Tecnológica em Saúde. - Fundaçao Oswaldo Cruz - ICICT/FIOCRUZ. Rio de Janeiro, RJ, Brasil
3. Doutora em Saúde Pública pela Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Pesquisadora - i3S - Instituto de Inovaçao e Investigaçao em Saúde, Universidade do Porto. Porto, Portugal
4. Doutor em Ciências Médicas (Tocoginecologia) pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Campinas, SP, Brasil. Mestre em Estatística pela Universidade Federal de Sao Carlos/SP, Brasil. Professor Associado (livre docente) da Universidade de Sao Paulo (USP/ Ribeirao Preto). Ribeirao Preto, SP, Brasil

Edson Zangiacomi Martinez
Departamento de Medicina Social, Faculdade de Medicina de Ribeirao Preto, Universidade de Sao Paulo
Av. Bandeirantes nº 3900, Monte Alegre
Ribeirao Preto, SP, Brasil. CEP: 14049-900
(edson@fmrp.usp.br)

Submetido em 18/12/2017
Aprovado em 09/03/2018

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, gravidez na adolescência, estudos ecológicos, distribuiçao espacial da populaçao.
Keywords: Adolescent, pregnancy in adolescence, ecological studies, residence characteristics.
Palabra Clave: Adolescente, embarazo en la adolescencia, estudios ecológicos, distribución espacial de la población.

Resumo:
OBJETIVO: Estudar a relaçao entre as taxas de gravidez na adolescência e o Indice Mineiro de Responsabilidade Social em Minas Gerais.
MÉTODOS: Foi realizado um estudo ecológico com base nos registros de nascidos vivos de maes adolescentes, obtidos pelo Sistema de Informaçoes sobre Nascidos Vivos (SINASC). Foi utilizado como covariável o Indice Mineiro de Responsabilidade Social (IMRS) e suas dimensoes. A análise estatística baseou-se em um modelo de regressao Bayesiano com estrutura espaço-temporal.
RESULTADOS: Verificou-se uma reduçao das taxas de gravidez na adolescência ao longo dos anos. Para todo o período estudado há profundas diferenças entre as regioes Norte e Sul do Estado. Tanto nas regioes mais desenvolvidas do Estado quanto naquelas marcadas por significativas deficiências estruturais e socioeconômicas, existe uma relaçao inversa entre a responsabilidade social na gestao pública, mensurada pelo IMRS, e a reduçao das taxas de gravidez na adolescência.
CONCLUSAO: Este achado evidencia que a gravidez na adolescência nao pode ser estudada sem considerar o contexto geográfico e socioeconômico em que essas jovens estao inseridas.

Abstract:
OBJECTIVE: Study the relationship between adolescent pregnancy rates and the State Social Responsibility Index in Minas Gerais State.
METHODS: Was conducted an ecological study based on registers of live births from adolescent mothers, which were obtained from the Live Births Information System (SINASC). The Minas Gerais State Social Responsibility Index (MGSSRI) and its dimensions were used as co-variables. The statistical analysis was based on a Bayesian space-time regression model.
RESULTS: There was a reduction in the adolescent pregnancy rates over the years. With regard to the study period, deep differences were observed between the northern and southern regions of the state. In the most developed regions of the State as well as in with significant structural and socio-economic deficiencies, there is an inverse relationship between public administration social responsibility, measured by MGSSRI, and reduction in the adolescent pregnancy rates.
CONCLUSION: This finding is an evidence that pregnancy during adolescence cannot be studied without considering the geographical and socio-economic contexts in which these adolescents are inserted.

Resumen:
OBJETIVO: Estudiar la relación entre las tasas de embarazo en la adolescencia y el Indice Minero de Responsabilidad Social en Minas Gerais.
MÉTODOS: Se realizó un estudio ecológico basado en los registros de nacidos vivos de madres adolescentes, obtenidos por el Sistema de Información sobre Nacidos vivos (SINASC). Se utilizó como co-variable el Indice Minero de Responsabilidad Social (IMRS) y sus dimensiones. El análisis estadístico se basó en un modelo de regresión Bayesiano con estructura espacio-temporal.
RESULTADOS: Se observó una reducción de las tasas de embarazo en la adolescencia a lo largo de los años. Para todo el período estudiado hay profundas diferencias entre las regiones Norte y Sur del Estado. Tanto en las regiones más desarrolladas del Estado como en aquellas marcadas por significativas deficiencias estructurales y socioeconómicas, existe una relación inversa entre la responsabilidad social en la gestión pública, medida por el IMRS, y la reducción de las tasas de embarazo en la adolescencia.
CONCLUSION: Este hallazgo evidencia que el embarazo en la adolescencia no puede ser estudiado sin considerar el contexto geográfico y socioeconómico en que estas jóvenes están insertas.

INTRODUÇAO

A adolescência é uma fase marcada pela transiçao entre a infância e a vida adulta. Muito além de um processo biológico, a adolescência abrange aspectos psicossociais, constitui um período no qual se acelera o desenvolvimento cognitivo e a estruturaçao da personalidade, marcado por modificaçoes corporais resultantes da açao hormonal, tanto em meninos quanto em meninas.1 Nessa fase, o indivíduo tende a nao perceber sua vulnerabilidade, nao reconhece os comportamentos que envolvem riscos pessoais, deixando assim de utilizar meios que possam protegê-lo. É nesse contexto que a gravidez inesperada e, às vezes, nao desejada, passa a ser um problema relevante, tanto do ponto de vista social quanto de saúde.2,3 Diversos estudos evidenciam as causas e as consequências de uma gravidez precoce, incluindo os aspectos sociais, econômicos, educacionais e comportamentais.4,5 Filhos de maes adolescentes têm maior probabilidade de nascerem prematuros, com baixo peso para a idade gestacional,6,7 anemia ferropriva e desproporçao cefalopélvica, além de apresentarem, com maior frequência, complicaçoes nutricionais e doenças infecciosas.8 Estudos indicam que as complicaçoes obstétricas decorrem principalmente do desenvolvimento incompleto da ossatura da pelve e do útero.9 Em adiçao, a gravidez adolescente tem sido associada à evasao escolar,10 sendo sua reincidência mais frequente em jovens que se encontram fora da escola ou em ano escolar inadequado à sua idade.11 A exclusao das gestantes adolescentes do ambiente escolar potencializa o ciclo de perpetuaçao da pobreza, dado que estas jovens terao o acesso dificultado a oportunidades de trabalho qualificado e melhorias de sua condiçao social.12

Segundo o Censo Demográfico realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 1991, 32,5% dos nascimentos de maes primigestas estavam concentrados em gestantes com idade entre 10 e 19 anos. Em 2000, esta porcentagem foi superior a 38%. Segundo dados do Sistema de Informaçoes sobre Nascidos Vivos (SINASC), entre os anos de 2010 a 2013, foram registrados no Brasil um aumento de aproximadamente 3,5% de nascidos vivos de maes adolescentes entre10 e14 anos. Alguns estudos descrevem que a condiçao de vulnerabilidade destas adolescentes mais jovens se dá pelo início precoce da atividade sexual e por serem provenientes de famílias pobres e vítimas de abuso físico e sexual.13,14

A gravidez na adolescência tem se mostrado um grave problema de saúde pública, entretanto nao se trata de falta de informaçoes por parte das adolescentes, alguns estudos15 concluem que as adolescentes mostram um elevado conhecimento em relaçao à existência de métodos contraceptivos. Assim, acredita-se que as condiçoes do ambiente em que elas estao expostas sao um dos fatores que as levam para uma gravidez precoce. Portanto, o presente estudo se propoe a dimensionar a distribuiçao geográfica da gravidez na adolescência em uma Unidade da Federaçao brasileira, utilizando um modelo Bayesiano de análise espaço-temporal que permite descrever as possíveis associaçoes entre o fenômeno e indicadores da responsabilidade social das áreas que compoem este espaço.


MÉTODOS

Foi realizado um estudo ecológico, modelo que considera as pessoas no contexto de diversos ambientes ou sistemas ecológicos em que elas residem: família, relacionamentos, vizinhança, comunidade e instituiçoes como a escola e o local de trabalho. Esse modelo se baseia na premissa de que os indivíduos nao podem ser estudados sem considerar os vários sistemas ecológicos em que eles vivem.16

O estado de Minas Gerais possui cerca de 20 milhoes de habitantes, sendo o segundo mais populoso do Brasil e o quarto maior em extensao territorial. É composto por 853 municípios, 66 microrregioes e 12 mesorregioes, como mostrado na figura 1. É a Unidade Federativa do Brasil com o maior número de municípios, onde apresenta características marcantes de desigualdades sociais e econômicas quando comparadas diferentes regioes, sendo as regioes Central e Norte profundamente marcadas por condiçoes naturais e estruturais bastante adversas.17


Figura 1. Mapa do estado de Minas Gerais descrevendo as 66 microrregioes e 12 mesorregioes analisadas no presente estudo.



Para caracterizar o estado de Minas Gerais segundo o número de nascidos vivos de maes adolescentes, foram utilizados os dados do Sistema de Informaçoes sobre Nascidos Vivos (SINASC) do Ministério da Saúde (DATASUS), considerando o número total de nascidos vivos em cada microrregiao do estado de Minas Gerais no período de 2000 a 2010, e o número de nascidos vivos cuja mae tinha de 10 a 19 anos, nas respectivas microrregioes. O percentual de gravidez na adolescência foi calculado segundo a divisao entre os nascidos vivos de maes com idades entre 10 e 19 anos e o número total de nascidos vivos.

Como variável independente, foi utilizado o Indice Mineiro de Responsabilidade Social (IMRS) para o ano de 2000. O IMRS foi criado com o objetivo de se obter um indicador quantitativo da responsabilidade social na gestao pública dos 853 municípios mineiros, sendo a Fundaçao Joao Pinheiro responsável por sua construçao. O índice tem por princípio as políticas, planos, programas, projetos e açoes implementados pela administraçao municipal que asseguram o acesso da populaçao à educaçao, saúde, assistência social, segurança pública, renda e emprego, saneamento e habitaçao, meio ambiente, cultura e desporto. Junto com um indicador voltado às finanças públicas, estes itens compoem as dez dimensoes do IMRS. Cada uma destas dimensoes é transformada em índices que variam de 0 a 1, sendo o IMRS "geral" dado por uma média ponderada entre os índices das dez dimensoes. Os dados sao disponibilizados na página eletrônica da Fundaçao Joao Pinheiro. Para obter indicadores relativos a cada microrregiao, uma vez que o IMRS é disponível para cada município, utilizou-se uma média ponderada pelos respectivos tamanhos populacionais.

Este estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa local (Processo n° HCRP-10157/2011).

Análise estatística

Foi utilizado um modelo Bayesiano espaço-temporal condicional auto-regressivo (CAR) 18, no qual: Yij denota a contagem de nascimentos de maes adolescentes, Nij denota o número total de nascidos vivos e θij denota a taxa de gravidezes na adolescência, sendo que i representa cada microrregiao e j cada ano da série analisada. O modelo estatístico considera que Yij é uma variável aleatória que segue uma distribuiçao binomial com probabilidade de "sucesso" θij em Nij ensaios independentes (Nij conhecido), sendo i=1,...,66 microrregioes e j=1,...,11 anos (j=1 denota o ano 2000, j=2 denota o ano 2001, e assim sucessivamente). Foi assumida uma funçao de ligaçao logito entre as taxas de gravidez na adolescência θij e uma observaçao xi da variável independente X (o IMRS "geral" ou cada uma das suas dimensoes), escrita na forma

logitoθij = α0j + di + wij + bj (xi -m)

em que: m é a média aritmética das observaçoes de X, α0je bj sao efeitos fixos, disao efeitos espaciais associados à i-ésima microrregiao e wij sao os respectivos efeitos temporais. Na análise Bayesiana, considera-se que cada di assume uma distribuiçao a priori espacial com estrutura CAR, que permite que as correlaçoes entre as áreas próximas no espaço sejam maiores. A estimaçao dos parâmetros do modelo baseou-se em simulaçao estocástica baseada em métodos MCMC (Markov Chain Monte Carlo), com a utilizaçao do módulo GeoBUGS19 do programa Win-BUGS. Assumiu-se que os efeitos wij seguem a priori uma distribuiçao normal multivariada com vetor de médias iguais a zero e matriz de variâncias descrita por Branscum et al.,20 que atribui covariâncias maiores entre tempos sucessivos, o que garante uma estrutura longitudinal para os dados. Foi considerado que as demais distribuiçoes a priori sao nao informativas e, entre si, independentes. Usando o método MCMC, foram geradas 30.000 amostras para cada parâmetro de interesse, sendo descartadas as 1.000 primeiras amostras para evitar algum efeito dos valores iniciais (burn-in samples). Para a comparaçao de modelos utilizou-se o critério DIC21, tal que modelos que apresentam menores valores de DIC sao aqueles com o melhor ajuste aos dados.


RESULTADOS

Dentre as gravidezes com nascidos vivos ocorridas no estado de Minas Gerais nos anos de 2000 e 2010, respectivamente 20,49% e 16,82% foram de adolescentes. É possível notar na figura 2 que as taxas tendem à reduçao ao longo dos anos em grande parte das microrregioes. Os mapas apresentados na figura 2 foram resultantes do ajuste do modelo espaço-temporal Bayesiano, considerando o IMRS como covariável. Em todo o período, prevaleceram as profundas diferenças entre as taxas observadas nas regioes Norte e Sul do estado, sendo que as menores taxas tendem a se concentrar na regiao Sul.


Figura 2. Taxas ajustadas de gravidez adolescente analisadas no presente estudo.



As menores taxas referem-se, coincidentemente, às regioes de maior tamanho populacional e maior desenvolvimento, como Belo Horizonte, Divinópolis, Itaguara e Conselheiro Lafaiete. No norte do Estado estao concentradas as maiores taxas de gravidez na adolescência, onde se destacam as microrregioes de Pirapora, Frutal, Grao Mogol, Unaí e Paracatu. A microrregiao de Pirapora, se destaca por apresentar as maiores taxas em todos os anos da série.

As maiores reduçoes dos percentuais de gravidez adolescente para o período foram observadas nas microrregioes de Uberlândia, que passou de 24% em 2000 para 16% em 2010, e Mantena, que diminuiu de 27% para 19%. Por outro lado, as microrregioes de Conceiçao do Mato, Guanhaes e Andrelândia, tiveram seus percentuais de gravidez na adolescência aumentados, de 17% para 21%, de 18% para 21% e de 18% para 19%, respectivamente. As microrregioes de Januária, Grao Mogol, Diamantina, Pedra Azul, Curvelo, Itabira, Peçanha e Santa Rita do Sapucaí nao tiveram alteraçoes em seus percentuais.

Alternativamente, foi também ajustado um modelo sem a inclusao dos efeitos espaciais (DIC=6703), mas o valor de DIC obtido do modelo incluindo estes efeitos foi menor (DIC=6513). Isto evidencia que taxas de gravidez na adolescência nao se distribuem aleatoriamente entre as diferentes microrregioes do Estado, mas há algum efeito espacial significativo.

A tabela 1 descreve as taxas médias de gravidez na adolescência segundo classes do IMRS "geral" (de 0,3 a 0,5; de 0,5 a 0,6 e de 0,6 a 0,8), e as razoes entre as taxas, com seus respectivos intervalos de credibilidade Bayesianos (ICr 95%). Intervalos que nao incluem o valor 1 indicam associaçoes significativas com as taxas de gravidez na adolescência (indicados com asteriscos "*" na Tabela 1). Para todos os anos do período estudado, observou-se uma relaçao inversa entre as taxas de gravidez adolescente e os valores do IMRS.




Foram ajustados modelos espaço-temporais considerando cada uma das dez dimensoes do IMRS. A tabela 2 exibe a associaçao entre as dimensoes educaçao, renda e emprego, e saúde, e as taxas de gravidez adolescente, nos anos de 2000, 2005 e 2010. Embora estes modelos considerem todos os anos da série, apenas os resultados relativos a estes três anos foram descritos na tabela, por parcimônia. Na tabela 2 foi possível observar maiores taxas de gravidez adolescente em municípios com menores índices de responsabilidade social relativas a estas dimensoes. Outros modelos, considerando as demais dimensoes da responsabilidade social, mostraram associaçoes significativas entre os respectivos índices e as taxas de gravidez adolescente (resultados nao mostrados).




DISCUSSAO

Sendo conhecido que as regioes Norte e Nordeste de Minas Gerais possuem níveis de desenvolvimento mais baixos que aqueles encontrados na regiao Sul do Estado (Figura 2), observa-se que estas profundas assimetrias trazem algum efeito sobre o fenômeno da gravidez adolescente. O nordeste do Estado inclui a mesorregiao do Vale do Jequitinhonha, descrita na literatura como a mais pobre e a menos desenvolvida do Estado17.

A microrregiao de Pirapora, localizada no norte do Estado, apresentou os maiores percentuais de gravidez adolescente em todo o período. Outras microrregioes de destaque com os maiores percentuais sao Frutal e Ituiutaba, ambas pertencentes à mesorregiao do Triângulo Mineiro/Alto do Paranaíba e às microrregioes do Jequitinhonha e do Vale do Mucuri. As microrregioes onde se observaram os maiores percentuais de gravidez adolescente foram aquelas que apresentaram os menores valores do IMRS "geral" (Tabela 1) e suas dimensoes (Tabela 2). No ajuste do modelo espaço-temporal considerando o IMRS "geral" como covariável, as microrregioes de Montes Claros e Salinas tiveram uma melhora acentuada no final da série, no ano de 2010. Em todas as dimensoes de IMRS, os menores percentuais foram observados na mesorregiao Metropolitana de Belo Horizonte, regiao caracterizada com municípios de maior tamanho populacional, maior oferta e oportunidade de emprego, melhores oportunidades educacionais e com mais opçoes de lazer e desporto.

O presente estudo foi baseado em um modelo ecológico, em que o fenômeno social da gravidez na adolescência é tratado de maneira coletiva, enquanto a maioria dos trabalhos publicados na literatura6,22,23 utilizou como unidades amostrais mulheres residentes em regioes específicas. A maior limitaçao dos estudos ecológicos é o fato deles serem passíveis do viés ou falácia ecológica, tal que uma associaçao observada entre grupos de indivíduos nao significa, necessariamente, que a mesma associaçao ocorra ao nível de indivíduos. No presente estudo, outra limitaçao importante é que as microrregioes com maiores dimensoes populacionais, como a microrregiao de Belo Horizonte, possivelmente possuem uma distribuiçao espacial bastante heterogênea de seus indicadores sociais, o que nao é caracterizado no modelo utilizado, que descreve cada microrregiao de modo uniforme.

Entretanto, os resultados encontrados foram similares ao verificado em estudos que consideraram gestantes como unidades amostrais6,22,23 e em estudos ecológicos similares, como no estudo conduzido por Nogueira et al.5 sobre a análise da distribuiçao espacial da gravidez adolescente no município de Belo Horizonte. Estes autores evidenciaram a presença de conglomerados com altas proporçoes de maes adolescentes em associaçao com as piores condiçoes socioeconômicas. Martinez et al.24 realizaram um estudo ecológico com análise espacial sobre a gravidez na adolescência e características socioeconômicas dos municípios do estado de Sao Paulo, evidenciando que a ocorrência de gravidez precoce é maior nos municípios com menor produto interno bruto per capita, menor índice de desenvolvimento humano e maior proporçao de pobreza. Martins et al.9 conduziram um estudo ecológico com análise espacial para as microrregioes de saúde do estado do Mato Grosso do Sul e verificaram que a fecundidade em mulheres adolescentes é maior nas microrregioes com piores indicadores de escolaridade e desenvolvimento socioeconômico.

O modelo Bayesiano aqui empregado mostrou-se eficiente na estimaçao das taxas ajustadas, sendo a estrutura espacial e a matriz de vizinhança adotadas adequadas aos dados, uma vez que, quando incorporados aos modelos, os valores de DIC apresentaram grande reduçao. Os resultados obtidos evidenciam uma forte dependência espacial para as taxas de gravidez adolescente entre os municípios de Minas Gerais, o que sugere que a estrutura da vizinhança exerce um papel fundamental para o seu entendimento em relaçao aos indicadores econômicos e sociais.

Como outra potencial limitaçao do presente estudo, considerou-se que a completude das informaçoes do SINASC pode nao ser homogênea em toda a extensao do estado de Minas Gerais, a exemplo de outros estados brasileiros.25 Um estudo26 que avaliou o SINASC em 132 municípios de Minas Gerais em 2010 evidenciou que o sistema nao estava implantado adequadamente na maioria dos municípios avaliados, destacando a insuficiência de profissionais qualificados, a coleta e o preenchimento insatisfatórios da Declaraçao de Nascidos Vivos, subutilizaçao dos dados e precária divulgaçao das informaçoes.

Por outro lado, ainda que estas limitaçoes possam trazer efeitos importantes sobre os achados deste estudo, pode-se concluir que a gravidez na adolescência transcende o âmbito biológico. Foram encontradas, por exemplo, evidências de que os baixos níveis de segurança pública, uma das dimensoes do IMRS, estao associados às maiores taxas de gravidez na adolescência. Um estudo global27 realizado com adolescentes de idades entre 15 e 19 anos que vivem em áreas urbanas desfavorecidas de cinco diferentes cidades (Baltimore-EUA, Johannesburg-Africa do Sul, Ibadan-Nigéria, Nova Deli-India e Xangai-China) encontrou um padrao semelhante. Este estudo mostrou que as chances de uma adolescente ficar grávida sao maiores em bairros violentos e onde o medo de ser assaltado ou agredido é grande. Além disso, o estudo realizado por Copping et al.28 apoia o argumento de que a percepçao da violência, a precocidade sexual e a gravidez na adolescência estao relacionadas com as condiçoes do ambiente.


CONCLUSAO

O presente estudo evidenciou uma relaçao entre a responsabilidade social na gestao pública, mensurada pelo IMRS, e a reduçao das taxas de gravidez na adolescência. Este achado contribui para o consenso que a gravidez na adolescência nao pode ser estudada sem considerar o contexto geográfico e socioeconômico em que essas jovens estao inseridas, de forma que, em uma dimensao maior, investimentos públicos que permitam o acesso da populaçao a múltiplos setores, como educaçao, meio ambiente, cultura e lazer, devem sempre ser compreendidos como essenciais para a promoçao da saúde.


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