Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 12 nº 4 - Out/Dez - 2015

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Páginas 29 a 36


Conhecimento sobre o HPV entre adolescentes durante a campanha de vacinação

Knowledge about HPV among adolescents during the vaccine campaign

Conocimiento sobre el HPV entre adolescentes durante la campaña de vacunación


Autores: Claudia Jurberg1; Gabriel de Oliveira Cardoso Machado2; Priscila Biancovilli3; Fernanda Torres Lima4; Marina Verjovsky5

1. Comunicação em Saúde. Jornalismo Científico. Doutora. Tecnologista da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Professora visitante da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
2. Comunicação em Saúde. Jornalismo Científico. Mestre em Educação, Gestão e Difusão em Biociências pelo Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Membro do Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia do IBqM da UFRJ. Doutorando no mesmo Programa de Pós-Graduação da UFRJ com bolsa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
3. Comunicação em Saúde. Jornalismo Científico. Jornalista pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Membro, bolsista da Fundação do Câncer, junto ao Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
4. Comunicação em Saúde. Jornalismo Científico. Graduada em Relações Internacionais pelo Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro,PUC-Rio, RJ. Membro bolsista da Fundação do Câncer, no Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Rio de Janeiro, RJ, Brasil
5. Comunicação em Saúde. Jornalismo Científico. Doutora em Educação, Gestão e Difusão em Biociências pelo Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Membro do Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Claudia Jurberg
Núcleo de Divulgação do Programa de Oncobiologia, Instituto de Bioquímica Médica Leopoldo de Meis
Avenida Carlos Chagas Filho, 373, Bloco H, sala H2-003, Cidade Universitária
Rio de Janeiro, RJ, Brasil. CEP: 21941-902
cjurberg@bioqmed.ufrj.br

Recebido em 20/10/2014
Aprovado em 28/03/2015

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Como citar este Artigo

Descritores: Vacinas, Papillomaviridae, adolescente, saúde do adolescente, prevenção de câncer de colo uterino.
Keywords: Vaccines, Papillomaviridae, adolescent, adolescent health, cervical cancer prevention.
Palabra Clave: Vacunas, Papilomavirus, adolescente, salud de adolescente, prevención de cáncer de cuello uterino.

Resumo:
OBJETIVO: Esta pesquisa procurou averiguar o conhecimento sobre o vírus do papiloma humano (HPV) entre jovens de uma escola pública do Rio de Janeiro e que tenham recebido a primeira dose dessa vacina.
MÉTODOS: Foi realizado um estudo transversal descritivo que procurou investigar o conhecimento de jovens, de ambos os sexos, sobre o HPV. Os jovens selecionados deveriam ter tido contato com a campanha de vacinação contra o HPV, instituída pelo governo brasileiro em 2014. O estudo baseou-se na aplicação de um questionário dirigido a alunos do 9º ano do ensino fundamental, entre 10 e mais de 20 anos, de uma instituição pública de ensino do Rio de Janeiro, cujas adolescentes tinham recebido a primeira dose da vacina. As questões versavam sobre o que é o HPV, como se transmite e o que pode causar.
RESULTADOS: Foram validados 213 questionários, sendo que 88% dos respondentes tinham entre 10 e 14 anos e 54% eram do sexo masculino. Menos de 1% (0,4%) dos participantes soube correlacionar o HPV a um vírus; 68% desconheciam sua forma de transmissão e apenas 22% souberam apontar o câncer de colo de útero como uma das consequências da contaminação. Nenhum dos respondentes relatou os cânceres de pênis, laringe, faringe, pulmão e outros.
CONCLUSÃO: Embora o Brasil tenha inserido em seu Programa Nacional de Imunização a vacina quadrivalente contra o vírus HPV e empreendido campanha de esclarecimento da população, ainda é forte o desconhecimento da sociedade sobre o tema.

Abstract:
OBJECTIVE: This study investigated knowledge about the Human Papillomavirus (HPV) among youngsters at a government school in Rio de Janeiro who had received the first dose of this vaccine.
METHODS: A cross-sectional descriptive study investigated knowledge about HPV among male and female pupils who should have had contact with HPV vaccination campaign run by the Brazilian government in 2014. The study was based on a questionnaire designed for 9th grade elementary school pupils between 10 and 20 years old at a government-run educational institution in Rio de Janeiro where girls had already received the first dose of vaccine. The questions were about what HPV is, how it is transmitted and what it can cause.
RESULTS: 213 questionnaires were validated, with 88% of the respondents between 10 and 14 years old and 54% male. Less than 1% (0.4%) of the participants were able to correlate HPV to a virus; 68% were unaware of how it is transmitted, and only 22% could mention cervical cancer as one of the consequences of contamination. None of the respondents reported cancers of the penis, larynx, pharynx, lungs and others.
CONCLUSION: Although Brazil has included the quadrivalent HPV vaccine in its national Immunization Program and conducted an enlightenment campaign for the population, there is still a widespread lack of knowledge of this topic in society.

Resumen:
OBJETIVO: Esta investigación buscó averiguar el conocimiento que había sobre el virus del papiloma humano (HPV), los jóvenes de una escuela pública de Rio de Janeiro y que habían recibido la primera dosis de esa vacuna.
MÉTODOS: Fue realizado un estudio transversal descriptivo que buscó investigar el conocimiento que tenían jóvenes de ambos sexos, sobre el HPV. Los jóvenes seleccionados deberían tener algún conocimiento de la campaña de vacunación contra el HPV, instituida por el gobierno brasileño en 2014. El estudio se basó en la aplicación de un cuestionario dirigido a alumnos del 9º año de la enseñanza fundamental, entre 10 y más de 20 años, de una institución pública de enseñanza de Rio de Janeiro, cuyas adolescentes habían recibido la primera dosis de la vacuna. Las preguntas exponían sobre qué es el HPV, cómo se transmite y qué puede provocar.
RESULTADOS: Fueron validados 213 cuestionarios, siendo que el 88% de los encuestados tenían entre 10 y 14 años de edad y el 54% eran del sexo masculino. Menos del 1% (0,4%) de los participantes supo relacionar el HPV a un virus; el 68% desconocían su forma de transmisión y apenas el 22% supieron puntualizar el cáncer de cuello de útero como una de las consecuencias de contaminación. Ninguno de los encuestados informó los cánceres de pene, laringe, faringe, pulmón y otros.
CONCLUSIÓN: Aunque Brasil haya incluido en su Programa Nacional de Inmunización la vacuna cuadrivalente contra el virus HPV y emprendida una campaña de aclaración a la población, aún es fuerte el desconocimiento de la sociedad sobre el tema.

INTRODUÇÃO

Infecção pelo vírus HPV

As infecções genitais pelo vírus do papiloma humano (HPV, da sigla em inglês) causam uma das doenças sexualmente transmissíveis mais comuns no mundo. Estudos que envolvem diversos países estimam que a doença esteja presente em 20% a 46% da população de mulheres jovens1,2,3.

A ocorrência do HPV entre mulheres é estimada em torno de 270 milhões de casos em todo o mundo4. Aproximadamente 3% a 5% da população sexualmente ativa no Brasil já mostrou sintomas da doença e o índice de detecção cresceu 500% na última década, provavelmente devido ao avanço das técnicas diagnósticas5.

De todos os 120 tipos de HPV, cerca de 12 estão relacionados com o desenvolvimento de tumores. Segundo uma meta-análise de 243 estudos publicados mundialmente entre 1990 e 2010 (com análises de 30.848 casos), 92,9% dos cânceres cervicais analisados estavam relacionados a algum tipo de HPV. A proporção de cânceres relacionados aos vírus dos tipos 16 e 18, ou aos dois juntos, foi entre 70% e 76% em todas as regiões6.

O vírus do HPV é um importante fator de risco para o desenvolvimento de câncer de colo do útero, mas também está relacionado aos cânceres de placenta7 laringe e orofaringe8, pulmão9, pênis10, vagina, vulva, ânus11 e outros órgãos10,12. Há indícios de que a infecção por HPV esteja relacionada a cerca de 97 mil casos de câncer não cervicais por ano-mundo, incluindo mais de 50 mil casos em homens11.

Vacinas contra o HPV

A partir de 2006, começaram a ser comercializadas duas vacinas profiláticas contra o HPV: a vacina bivalente, que protege contra os tipos virais 16 e 18, e a quadrivalente, que oferece proteção contra os tipos 6, 11, 16 e 18. Mais de cem países já aprovaram essas vacinas para uso, inclusive o Brasil13, sendo que, em diversos deles, há financiamento público por meio de seus sistemas de saúde. Apesar de eficazes na ação preventiva, elas não excluem a necessidade de realizar regularmente os exames preventivos, já que permanece o risco de infecção por outros tipos de HPV oncogênicos, que correspondem a cerca de 30% dos casos de câncer cervical (dependendo da prevalência regional dos tipos virais). Além disso, as vacinas não são terapêuticas em mulheres que já estejam infectadas. Por isso, são especialmente recomendadas para adolescentes e pré-adolescentes virgens14.

A implementação da imunização contra o HPV no Brasil ocorreu em março de 2014, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS). A campanha tem como público-alvo meninas entre 11 e 13 anos. Em 2015, a vacina quadrivalente passará a ser oferecida para adolescentes a partir dos 9 anos. A meta inicial do Governo é vacinar 80% do público-alvo, formado por 5,2 milhões de adolescentes. A vacina está disponível nos 36 mil postos da rede pública como parte da rotina de imunização. Também foi previsto reforço na comunicação dentro das escolas, visando os adolescentes, pais e professores, com distribuição do Guia Prático sobre o HPV15.

Em paralelo, foi desenvolvida uma campanha publicitária informativa. Com o tema "Cada menina é de um jeito, mas todas precisam de proteção", as peças convocam as meninas para se vacinar. Na campanha, as mulheres também são alertadas de que a prevenção do câncer do colo do útero deve ser permanente. As informações foram veiculadas por meio de cartazes, spot de rádio, filme para TV, anúncio em revistas, outdoors e nas redes sociais15.

O objetivo desta pesquisa é verificar o conhecimento sobre o HPV entre jovens de uma escola pública do Rio de Janeiro que tenham recebido a primeira dose dessa vacina.


MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal descritivo que procura investigar o conhecimento de jovens, de ambos os sexos, sobre o HPV, além de como ele é transmitido e o que pode causar. Os jovens selecionados deveriam ter tido contato com a campanha de vacinação contra o HPV, instituída pelo Governo brasileiro em 2014. O estudo baseou-se na aplicação de um questionário dirigido a alunos do 9º ano do Ensino Fundamental, com idades mínimas de 10 anos, de uma instituição pública de ensino localizada no bairro da Ilha do Governador, Rio de Janeiro, cujas adolescentes tinham recebido a primeira dose da vacina quadrivalente contra o HPV.

Os dados foram coletados nos meses de maio e junho de 2014, durante cinco atividades realizadas na unidade escolar, nos turnos da manhã e da tarde. Os responsáveis dos estudantes que foram convidados a participar do estudo receberam informações sobre o propósito e os objetivos da participação de seus filhos, e que essa era voluntária. O protocolo do estudo foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva (IESC), da Universidade Federal do Rio do Janeiro, sob o número 0015.0.239.000-11.

O questionário, elaborado em duas partes, foi entregue aos alunos pelos professores convidados, tendo sido preenchido durante as atividades realizadas na escola. Os alunos responderam anonimamente. A primeira parte investigava detalhes pessoais, como idade e sexo, sendo que a idade foi dividida por faixas etárias (10 a 14 anos; 15 a 17 anos; 18 a 20 anos; mais de 20 anos). Em um segundo momento, os participantes foram convidados a responder a três perguntas abertas qualitativas:

▪ O que é HPV?

▪ Como se transmite?

▪ O que o HPV causa?

Para a análise do questionário, as respostas foram separadas em categorias e sua frequência foi estudada. As categorias são constituídas por ideias e concepções acerca da pergunta, e reúnem o que Moscovici16 identificou como "representações sociais". Todos os questionários foram revisados por três investigadores, utilizando-se do método proposto por Bardin17. Quando a mesma categoria foi identificada pelos três pesquisadores, foi considerada válida, mas quando houve discordância sobre alguma categoria, essa foi descartada17. Quantificou-se, inclusive, o número de respostas do tipo "não sei". Posteriormente, utilizamos o Discurso do Sujeito Coletivo18, no sentido de construir, a partir do levantamento dos depoimentos coletados na parte qualitativa do questionário, um "depoimento coletivo confeccionado com extratos de diferentes depoimentos individuais"18.


RESULTADOS E DISCUSSÕES

Obtiveram-se 213 respostas e todas foram validadas. A amostra demográfica (idade) é caracterizada na Tabela 1 e a proporcionalidade entre os sexos é descrita na Figura 1.




Figura 1. Divisão por sexo entre os participantes da pesquisa



Em relação ao desconhecimento às três perguntas formuladas - "O que é HPV?", "Como se transmite?", "O que causa?" - 27% (58) dos respondentes escreveram "não sei" para os três itens.

Verjovsky19 mostrou resultados obtidos com este mesmo instrumento de coleta, também quanto ao conhecimento dos respondentes sobre o HPV. A pesquisa, porém, foi realizada com estudantes de graduação das áreas biomédicas, tecnológicas e humanas, em dois períodos distintos e separados num intervalo de tempo de cinco anos, em 2008 e em 2013. Na primeira etapa, participaram 156 estudantes e, em 2013, 128 graduandos.

Vale ressaltar que ambas as pesquisas aplicadas por Verjovsky e colaboradores foram empreendidas antes da campanha de vacinação contra o HPV. Assim, pôde-se verificar a falta de conhecimento sobre HPV entre adolescentes no Rio de Janeiro em ambos os períodos.

Em 2008, 20% dos 156 participantes (33) deixaram em branco (ou responderam que não sabiam) todas as três perguntas, tendo melhorado o índice em 2013 para 6% dos 128 participantes. Porém, essa melhora deveu-se basicamente ao incremento no conhecimento dos estudantes biomédicos.

No presente estudo, junto aos estudantes do ensino fundamental de uma unidade escolar pública do Rio de Janeiro, ao separar os questionamentos, encontramos o seguinte perfil: quanto ao primeiro questionamento ("O que é HPV?"), do total de respondentes (213), 72 (33,8%) responderam "não sei". Destes, 41% eram do sexo feminino, ou seja, as adolescentes que tinham acabado de receber a primeira dose da vacina contra o HPV desconheciam o assunto.

Para esta questão, aplicamos a metodologia do Discurso do Sujeito Coletivo, proposta por Lefèvre & Lefèvre18, com o intuito de sintetizar as ideias, juntamente com a proporção das respostas obtidas neste questionamento. O resultado pode ser observado na Tabela 2.




O Discurso do Sujeito Coletivo A, "doença", foi o conceito mais compartilhado entre os 213 entrevistados, resultando no seguinte discurso construído:

"O HPV é uma doença muito forte e rara, dada em meninas de 10 a 13 anos. Uma doença muito ruim, grave e contagiosa, que causa câncer e pode até matar se a pessoa não se tratar, mas apenas meninas. É uma doença parecida com a AIDS. É uma doença sobre o câncer no colo do útero, que só dá nas mulheres, no útero da mulher, mas é muito difícil de pegar. Se toma vacina para doença do HPV. As meninas fazem a doença com 11 anos, por isso tomam a vacina. É sexualmente transmissível e perigosa. É uma doença muito real. Acho que é uma doença de sol também".

Pouco mais de 10% dos participantes (28) associaram o HPV a uma vacina, sendo que 54% (15) destes eram do sexo feminino. Um dos respondentes do sexo masculino ainda afirmou: "É uma vacina para a menina não ficar grávida".

Entre o total de participantes, apenas um indivíduo do sexo masculino (0,46%) acertou a resposta ao apontar um vírus; outro, porém, também do mesmo sexo, escreveu "vírus da AIDS".

Ao serem convidados a responder "Como se transmite?", 67,8% (144) não souberam responder, sendo que 40% (57) destes eram do sexo feminino. Lembrando que essas mesmas meninas haviam recebido, recentemente, a primeira dose da vacina contra o HPV.

Ao aplicar o Discurso do Sujeito Coletivo18 neste questionamento, associando-o às devidas percentagens, as respostas obtidas se enquadram na forma expressa na Tabela 3.




Diante desse quadro, o Discurso do Sujeito Coletivo18 baseia-se, principalmente, na categoria G e pode ser assim explicitado:

O HPV se transmite pelas garotas num relacionamento sexual se a gente não se cuidar. Por falta de higiene feminina, o HPV vai ser transmitido no colo do útero e é preciso tomar vacina para não dar a doença. O HPV se transmite sexualmente tendo uma grande quantidade de filhos, pelo útero e para o útero, se não usar camisinha ou gozando errado. Na sua primeira relação sexual, o HPV se transmite das meninas para os meninos.

Curioso notar o aparecimento de respostas inesperadas para o questionamento "Como se transmite?". Algumas delas foram: "satélite", "tendo muitos filhos", "genética", "germes", "pele" e "furando o pé na ferrugem".

Ao serem questionados sobre o que pode causar, o número de respondentes que não soube responder foi de 45,2% (96). O quadro demonstrativo sobre as categorias encontradas neste questionamento pode ser observado na Tabela 4.




Excluindo-se respostas do tipo "não sei", o Discurso do Sujeito Coletivo D, "câncer no colo do útero", foi a ideia mais compartilhada (13,6%) entre os 213 entrevistados, resultando na frase que sintetizamos a seguir:

O HPV pode causar câncer de útero, câncer no colo do útero e levar à morte.

Outros respondentes apontaram a "Aids", "os filhos nascem com problemas", "manchas vermelhas", "gravidez", "dificuldade de engravidar", "lepra", "fimose", "enfarto", "vômito", "febre" e"enjoo". Embora o câncer de colo uterino tenha sido o mais apontado nesse questionamento, 86% dos respondentes, mesmo tendo recebido informações ou a própria vacina contra o HPV, ainda desconheciam o assunto.

No inquérito aplicado por Verjovsky e colaboradores19, o questionamento "O que o HPV pode causar?" foi o de maior desistência entre os participantes. A pergunta não foi respondida por 35% da amostra de estudantes universitários, em 2008, e por 23% em 2013. Comparando com os resultados atuais, de 2014, em que os adolescentes, estudantes do Ensino Fundamental, tinham acabado de tomar contato com a vacinação contra o HPV, o índice daqueles que não responderam a esta pergunta foi semelhante (32%).

Consideramos especialmente grave o fato de quase a metade dos participantes, em 2008 e 2013, não saberem que o HPV pode causar câncer e, mesmo as adolescentes tendo sido vacinadas em sua unidade escolar em 2014, mais de 70% do total de alunos de ambos os sexos do 9º ano do Ensino Fundamental desconhecerem o fato. Portanto, podemos afirmar que as campanhas que visam a esclarecer os jovens acerca do vírus ou da vacinação contra o HPV não têm sido eficazes, pois os jovens cariocas, e quiçá de outros estados brasileiros, continuam a desconhecer o assunto.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embora nossa amostra tenha sido reduzida, vemos que a ignorância acerca do HPV ainda é grande, a despeito de toda a campanha de vacinação e da disponibilidade da vacina quadrivalente contra o vírus do HPV nos postos de saúde do Sistema Único de Saúde e em unidades escolares do Rio de Janeiro.

Apesar de parte de esses jovens acertarem alguns dos questionamentos propostos nesse questionário acerca do tema, a maioria desconhece os reais riscos que estão correndo com relação ao desenvolvimento dos cânceres provocados por esse vírus. Neste levantamento com a aplicação do formulário numa escola da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, além do significativo índice de respostas do tipo "não sei" (33,8% para a primeira pergunta; 67,8% para o segundo questionamento; e 45,2% para o terceiro), nenhum dos respondentes apontou outros tipos de câncer provocados pelo HPV, tais como de laringe e orofaringe8, pulmão9, pênis10, vagina, vulva, ânus11 e outros órgãos 10,11.

Diante desse panorama, podemos afirmar que não houve um aumento expressivo na absorção do conteúdo sobre o HPV entre os jovens cariocas que receberam a vacina. Nesse sentido, recomendamos que outros estudos sejam aplicados para validar estes achados e, caso se confirmem, campanhas sejam elaboradas de forma a atingir esse público-alvo de forma mais efetiva.


NOTA

Este trabalho recebeu suporte financeiro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação do Câncer.


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