Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 5 nº 3 - Jul/Set - 2008

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Páginas 54 a 56


Estagiamento de Tanner: um estudo de confiabilidade entre o referido e o observado

Tanner stages: a study of reliability between the refered and the observed


Autores: Celise Meneses1, Denise Leite Ocampos2, Tatiane Bertoni de Toledo3

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, estadiamento de Tanner
Keywords: Adolescent, Tanner stages

Resumo:
O estagiamento de Tanner é instrumento da prática diária do profissional que lida com adolescentes, sendo muito útil na determinação do estágio puberal em que se encontra o paciente e permitindo relacionar tal informação com a clínica. O objetivo do presente estudo foi avaliar a confiabilidade, pelo coeficiente kappa, dos relatos de adolescentes quando se auto-referem no quadro que retrata as diversas fases do estagiamento de Tanner em comparação com a classificação feita por médicos especialistas durante o exame físico. A confiabilidade encontrada quanto ao estagiamento de Tanner referido pelo paciente é pobre em ambos os sexos, sendo recomendado que essa avaliação seja realizada pelo médico durante o exame físico detalhado.

Abstract:
Tanner staging is an instrument of daily practice for professionals who deal with adolescents. It is very useful in determining the puberal stage in which the patientis is, enabling correlation with the clinic.The objective of this study was to asses reliability, through the kappa coefficient, of adolescent testimonials when they refer to themselves according to the different phases of Tanner as compared to the classification made by specialist doctors conducted during the physical exam.The reliability found for the Tanner stages refered by patients is poor in both genders, being strongly recommend that this assessment be conducted by the doctor during the detailed physical examination.

INTRODUÇÃO

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a adolescência como o intervalo compreendido entre os 10 e os 19 anos de idade, período que se caracteriza por grandes transformações físicas, psicológicas e sociais(5). A população de adolescentes é crescente e, atualmente, um em cada cinco indivíduos encontra-se nessa faixa etária.

A puberdade é o fenômeno biológico que se refere às mudanças fisiológicas e morfológicas resultantes da reativação dos mecanismos neuro-hormonais do eixo hipotalâmico-hipofisário-gonadal. As principais manifestações da puberdade são o estirão puberal e as mudanças na composição corporal, além do desenvolvimento gonadal, dos órgãos de reprodução, das características sexuais secundárias e dos sistemas e órgãos internos. Ocorre grande variabilidade no tempo de início, na duração e na progressão do desenvolvimento puberal(3). Considerase atraso puberal a ausência de caracteres sexuais secundários em meninas a partir dos 13 anos; e em meninos a partir dos 14 anos. A monitorização do desenvolvimento puberal é feita pela classificação de Tanner, que estudou e sistematizou a seqüência dos eventos puberais em ambos os sexos, em cinco etapas, considerando, quanto ao sexo feminino, o desenvolvimento mamário e a distribuição e a quantidade de pêlos; e no masculino, o aspecto dos órgãos genitais e também a quantidade e a distribuição dos pêlos pubianos(4). A representação gráfica do estagiamento de Tanner para mamas no sexo feminino encontra-se na Figura 1.


Figura 1 - Mamas



  • M1 - mama infantil.
  • M2 (8-13 anos) - fase de broto mamário, com elevação da mama e aréola como pequeno montículo.
  • M3 (10-14 anos) - maior aumento da mama, sem separação dos contornos.
  • M4 (11-15 anos) - projeção da aréola e das papilas para formar montículo secundário por cima da mama.
  • M5 (13-18 anos) - fase adulta, com saliência somente nas papilas.


  • Na Figura 2 podemos observar as diversas fases de desenvolvimento puberal, levando-se em consideração os pêlos pubianos em ambos os sexos e a genitália no sexo masculino.


    Figura 2 - Pêlos pubianos nos sexos feminino e masculino



    SEXO FEMININO

  • P1 - fase de pré-adolescência (não há pelugem).
  • P2 (9-14 anos) - presença de pêlos longos, macios e ligeiramente pigmentados ao longo dos grandes lábios.
  • P3 (10-14,5 anos) - pêlos mais escuros e ásperos sobre o púbis.
  • P4 (11-15 anos) - pelugem do tipo adulto, mas a área coberta é consideravelmente menor que a do adulto.
  • P5 (12-16,5 anos) - pelugem do tipo adulto, cobrindo todo o púbis e a virilha.


  • SEXO MASCULINO

  • P1 - fase de pré-adolescência (não há pelugem).
  • P2 (11-15,5 anos) - presença de pêlos longos, macios e ligeiramente pigmentados na base do pênis.
  • P3 (11,5-16 anos) - pêlos mais escuros e ásperos sobre o púbis.
  • P4 (12-16, 5 anos) - pelugem do tipo adulto, mas a área coberta é consideravelmente menor que a do adulto.
  • P5 (15-17 anos) - pelugem do tipo adulto, estendendo- se até a face interna das coxas.


  • GENITÁLIA (SEXO MASCULINO)

  • G1 (9,5-13,5 anos) - pré-adolescência (infantil).
  • G2 (10-13,5 anos) - crescimento da bolsa escrotal e dos testículos, sem aumento do pênis.
  • G3 (10,5-15 anos) - ocorre também aumento do pênis, inicialmente em toda a sua extensão.
  • G4 (11,5-16 anos) - aumento do diâmetro do pênis e da glande, crescimento dos testículos e do escroto, cuja pele escurece.
  • G5 (12,5-17 anos) - tipo adulto.



  • OBJETIVO

    O presente estudo visa avaliar, pelo coeficiente kappa, os relatos de adolescentes quando se autoreferem no quadro que retrata as diversas fases do estagiamento de Tanner em comparação com a classificação feita por médicos especialistas durante o exame físico dos mesmos pacientes na mesma consulta clínica.


    METODOLOGIA

    Foram avaliados 65 adolescentes que compareceram para sua primeira consulta de clínica médica. Inicialmente era solicitado ao paciente que se colocasse, segundo sua percepção, em uma das cinco fases do estagiamento puberal para pelos pubianos (P) para ambos os sexos, mamas (M) para as meninas e genitália (G) para os meninos. Em um segundo momento, durante o exame físico, era feita a classificação pelo médico especialista. Foi utilizado o software Stata 6.0 para entrada e análise dos dados.

    O coeficiente kappa mediu níveis de concordância entre a avaliação feita pelo médico especialista e aquela em que o próprio adolescente se pôs nos diferentes níveis de desenvolvimento puberal apresentados, corrigindo a concordância esperada pelo acaso(1). Utilizaram-se cinco categorias para as estimativas de confiabilidade, a partir dos valores encontrados para o kappa: quase perfeita (> 0,8); substancial (0,61 a 0,8); moderada (0,41 a 0,6); regular (0,21 a 0,4); fraca (0,01 a 0,2) e pobre (0)(2).


    RESULTADOS

    A amostra totalizou 65 adolescentes, 37 do sexo feminino (56,9%) e 28 do masculino (43%).

    Com relação à idade, 31 adolescentes, ou 47,7% da amostra, tinham entre 12 e 14 anos; 23 deles (35,4%) encontravam-se entre 15 e 17 anos; e 11 (16,9%) estavam na faixa etária entre 18 e 20 anos. A maioria dos avaliados estava cursando o ensino fundamental (45 indivíduos ou 69,3%), 30,7%, ou 20 adolescentes, disseram estar cursando o ensino médio.

    Para a avaliação de pêlos pubianos foi encontrado k = 0,49 para o sexo feminino e k = 0,59 para o masculino. Quanto à avaliação das mamas (sexo feminino) encontrou-se k = 0,42; e para a genitália (sexo masculino), k = 0,1.


    CONCLUSÃO

    Tais valores demonstram que a confiabilidade do estagiamento de Tanner referido pelo paciente adolescente é bastante pobre, em ambos os sexos, recomendando-se que essa avaliação seja feita pelo médico durante exame físico detalhado.


    REFERÊNCIAS

    1. Fleiss JL. Statistical methods for rates and proportions. New York: Jonh Wiley & Sons. 1981.

    2. Landis JR, Koch GG.. The measurement of observer agreement for categorical data. Biometrics.1977;33:159-74.

    3. Neinstein LS. Adolescent health care: a practical guide. Baltimore: Urban and Schwarsenberg. 1984.

    4. Tanner JM. Growth at adolescence. 2. ed. Oxford: Blackwell Scientific Publications. 1962.

    5. WHO. Young people's health: a challenge for society. World Health Organization Technical Report Series. 1986;731.










    1. Médica do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (NESA/UERJ); mestre e doutora em Saúde Coletiva/Epidemiologia.
    2. Médica de Adolescentes e médica de família e Comunidade; pós-graduanda em Saúde Mental; chefe do Núcleo de Atenção Integral à Saúde do Adolescente do Disrito Federal.
    3. Médica de Adolescentes e endocrinologista.
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