Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 11 nº 2 - Abr/Jun - 2014

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Páginas 7 a 18


Os adolescentes e a internet: padrões de (ab)uso

Teens and the internet: patterns of (ab)use

Los adolescentes e internet: estándares de (ab)uso


Autores: Carolina Viveiro1; Marília Marques2; Rui Passadouro3; Pascoal Moleiro4

1. Licenciatura em Medicina. Interna de Formação Específica em Pediatria, Serviço de Pediatria do Hospital de Santo André - Centro Hospitalar Leiria-Pombal, Portugal
2. Licenciatura em Medicina. Interna de Formação Específica em Pediatria, Serviço Pediatria do Centro Hospitalar Médio-Tejo, Portugal
3. Licenciatura em Medicina. Assistente Graduado de Saúde Pública, Unidade de Saúde Pública ACES Pinhal Litoral II - Leiria, Portugal
4. Licenciatura em Medicina. Assistente Hospitalar de Pediatria, Serviço de Pediatria do Hospital de Santo André - Centro Hospitalar Leiria-Pombal, Portugal

Carolina Viveiro
Av. Elias Garcia nº6, 4º direito
1000-149 Lisboa, Portugal
carolina.viveiro@gmail.com

Recebido em 13/09/2013
Aprovado em 14/12/2013

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, internet, Portugal.
Keywords: Adolescent, internet, Portugal.
Palabra Clave: Adolescente, internet, Portugal.

Resumo:
OBJETIVO: Avaliar a prevalência e as características de utilização de Internet entre os adolescentes de Leiria e determinar a prevalência de uso patológico de Internet.
MÉTODOS: Estudo transversal descritivo, baseado num questionário anônimo dirigido a alunos de 7 escolas do concelho de Leiria, Portugal, com idades entre 12-18 anos. As questões versavam sobre: características de utilização da Internet e aplicação da escala de dependência de Young (EDIY).
RESULTADOS: Validados 638 inquéritos, 57% correspondentes ao sexo feminino, média de idades 15 anos. Todos são usuários da Internet, 82% há mais de 2 anos. Acedem à Internet sobretudo no domicílio (96%), 51% fazem-no diariamente e 58% por mais de 1 hora. A existência de regras para o uso de Internet foi documentada em 28%. A Internet é usada primordialmente para socialização. Relativamente à comunicação on-line: 32% reportaram falar com desconhecidos e 20% assumem diferentes identidades. Relativamente à exposição pessoal on-line: 89% revela nome, 63% idade, 67% publica fotos nas redes sociais e 8% já marcou encontros com pessoas que conheceu on-line. Aplicando a EDIY, verificou-se um padrão de uso de Internet borderline em 18% e de uso patológico em 1,2%.
CONCLUSÃO: Os adolescentes deste estudo apresentam comportamentos de risco e padrões de uso de Internet alarmantes. Apesar da percentagem reduzida de utilização abusiva de Internet comparativamente com outros países, apurou-se uma proporção significativa de uso borderline, incitando à adoção de medidas de prevenção.

Abstract:
OBJECTIVE: To assess the prevalence and characteristics of Internet use among adolescents in Leiria, exploring the prevalence of pathological Internet use.
METHODS: Cross-sectional study based on an anonymous questionnaire completed by pupils between 12 and 18 years old at seven schools in Leiria, Portugal. The questions addressed: Internet use characteristics and the application of Young's Internet Addiction Scale (YIAS).
RESULTS: There were 638 validated replies, 57% from girls with an average age of 15 years old. All the pupils were Internet users, 82% for more than two years (82%). Most (96%) of them usually accessed the Internet from home, 51% on a daily basis and 58% for more than an hour, with home rules on Internet use documented in 28%. The primary purpose of accessing the Internet was to socialize. For online communications: 32% reported chatting with strangers and 20% assumed different identities. For online exposure: 89% disclosed their names, 63% their ages, 67% published photos on social networks and 8% admitted to dates with people they met online. According to the YIAS, 18% reached borderline Internet use and 1.2% engaged in pathological use.
CONCLUSION: The teenagers in this study present high-risk online behaviors and alarming Internet usage patterns. Although abusive Internet use reached a low percentage compared to other countries, there was a significant proportion of borderline use, indicating an urgent need for preventive measures.

Resumen:
OBJETIVO: Evaluar la superioridad y las características de utilización de Internet entre los adolescentes de Leiria y determinar la superioridad del uso patológico de Internet.
MÉTODOS: Estudio transversal descriptivo, basado en un cuestionario anónimo dirigido a alumnos de 7 escuelas del consejo de Leiria, Portugal, con edades entre 12-18 años. Las preguntas reflejaban sobre: características del uso de Internet y aplicación de la escala de dependencia de Young (EDIY).
RESULTADOS: Validados 638 expedientes, 57% correspondientes al sexo femenino, promedio de edad de 15 años. Todos son usuarios de Internet, 82% hace más de 2 años. Acceden a Internet principalmente en el domicilio (96%), 51% lo hacen diariamente y 58% por más de 1 hora. La existencia de reglas para el uso de Internet fue documentada en un 28%. Internet es usada primordialmente para socialización. Relativo a la comunicación on-line: 32% indicaron hablar con desconocidos y 20% asumen diferentes identidades. Relativo a la exposición personal on-line: 89% revela nombre, 63% edad, 67% publica fotos en las redes sociales y 8% ya marcó encuentros con personas que conoció on-line. Aplicando EDIY, se verificó una calidad de uso de Internet borderline en un 18% y de uso patológico en un 1,2%.
CONCLUSIÓN: Los adolescentes de este estudio presentan comportamientos de riesgo y estándares de uso de Internet alarmantes. A pesar del porcentaje reducido de utilización abusivo de Internet, comparativamente con otros países, resultó una proporción significativa de uso borderline, incitando a la adopción de medidas de prevención.

INTRODUÇÃO

Desde a década de 90, o uso da internet rapidamente se generalizou, sobretudo entre a população adolescente, tornando-se uma atividade comum.

À semelhança de outros países ocidentais, Portugal apresenta elevados níveis de utilização da internet entre a população jovem. Segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE) em 2012, a percentagem de usuários da Internet na faixa dos 10-15 anos era 95%, substancialmente mais elevada do que no grupo etário dos 16-74 anos (60%)1. Na faixa etária dos 10-15 anos, a percentagem de usuários da internet ultrapassava a de utilização de celular (93%)1.

Com a crescente popularidade e fácil acesso à internet, sua utilização abusiva é uma preocupação, já que a adolescência é um período crítico de vulnerabilidade a comportamentos de dependência, sendo os adolescentes aparentemente mais susceptíveis a padrões de uso patológico da internet (UPI) comparativamente à população adulta2,3. Por outro lado, a liberdade que a internet oferece expõe os adolescentes a conteúdos impróprios (de caráter violento, como o ciberbullying, pornográfico, racista ou pedófilo), o que levanta graves problemas em termos de proteção a menores de idade.

O UPI, também designado de uso problemático ou dependência da internet, é um conceito polêmico e ainda não claramente definido. Surgiu em 1995 com Goldberg e foi tornado conhecido por Young em 1996. Inicialmente, Young definiu esta entidade a partir dos critérios da DSM-IV para a dependência de substâncias, que posteriormente atualizou, adaptando os critérios do jogo patológico, para elaborar a escala de dependência de Internet de Young (EDIY)4.

Shapira et al., em 2003, propôs uma noção diagnóstica mais abrangente, classificando-a como uma perturbação do controle de impulsos5. O UPI é definido como uma preocupação excessiva e mal-adaptável ao uso da internet, experienciada como a sua utilização irresistível e incontrolável por períodos mais longos do que o desejado5. O uso de internet, ou a preocupação com o seu uso, causa significativa angústia ou perturbação no funcionamento social, profissional ou em outras áreas importantes, e o seu uso excessivo não ocorre durante períodos de mania ou não é melhor explicado por outra patologia5.

Independentemente da dificuldade em sua conceituação e definição, já foram publicados diversos artigos, estabelecendo uma relação entre o uso abusivo e o aparecimento de problemas de saúde física e mental6. Assim, o uso abusivo está muito associado a comorbilidades como: perturbação de hiperatividade e déficit de atenção, depressão, ansiedade, baixa autoestima, impulsividade, timidez e ideação suicida7. Outros sintomas, nomeadamente físicos, como a cefaleia e dor musculoesquelética, mas também problemas de sono e obesidade, têm sido associados ao uso excessivo da internet6.

Contudo, e apesar das repercussões negativas descritas, sobretudo em situações de uso abusivo, é importante mencionar que o uso de internet também apresenta aspectos positivos, constituindo-se como um veículo para promoção o desenvolvimento cognitivo, social e físico dos adolescentes8.


MÉTODOS

Trata-se de um estudo transversal descritivo baseado na aplicação de um inquérito dirigido a alunos do 3º ciclo do ensino básico e secundário, com idades compreendidas entre os 12 e os 18 anos, de sete escolas do Concelho de Leiria, Portugal.

Os dados foram coletados entre maio e junho de 2011.

Elaborou-se um questionário anônimo, que foi entregue e preenchido pelos alunos, após aprovação pelas comissões executivas das escolas participantes. Os questionários foram entregues pelo professor responsável pela turma selecionada e preenchidos durante o tempo letivo. Os inquéritos foram preenchidos individualmente.

O questionário era constituído por 25 perguntas fechadas versando dados demográficos (idade, gênero, rendimento escolar) e características de utilização da internet. As características de uso de internet compreendiam: a existência de computador pessoal, história e duração de utilização diária, local de acesso, regras de utilização em casa, atividades on-line (redes sociais, correio electrónico, jogos, programas de mensagens instantâneas, web sites), tipo de comunicação estabelecida (escrita, áudio, vídeo) e destinatários, grau de exposição pessoal (partilha de dados pessoais como a identificação, endereço eletrônico, domicílio, escola que frequenta, fotos), adoção de diferentes identidades na rede e marcação prévia ou futura de encontros com pessoas com quem estabelecem contato on-line.

Definiram-se como usuários intensivos de internet (UII), os participantes que reportaram estarem on-line por um período diário 3 2 horas diariamente, cut-off similar ao já definido na literatura6.

A prevalência do UPI e de uso borderline de internet (UBI) foi determinada através da aplicação de um questionário validado para a população-alvo, proposto por Young em 1998, que foi traduzido para português9.

A EDIY avalia a severidade das consequências negativas do uso de internet. É constituída por 20 questões de resposta múltipla, onde o participante atribui pontuação de 1 ("nunca") a 5 ("sempre"), referentes à presença e/ou frequência de determinado comportamento/atitude em relação ao seu uso de internet. A soma das respostas aos diferentes itens traduzirá a maior ou menor propensão para a dependência da internet. Assim, uma pontuação até 39 corresponde a um uso "saudável" da internet, um valor de 40 a 69 traduz um UBI, e, acima de 69 prefigura um UPI.

Neste estudo, definimos como uso "não salutar" de internet (UNSI), o conjunto de participantes com UPI e com UBI (pontuação acima 39), em contraposição com os que apresentam um uso dito "saudável" (abaixo de 39).

O tratamento estatístico dos dados foi efetuado com o programa PASW Statistics18.0 (SPSS Inc.). Foi usado o teste X2 para analisar as relações estatísticas entre variáveis binárias dependentes e entre variáveis independentes e o t de Student para variáveis não categóricas. Foi considerado o valor de a<0,05 como critério com significado estatístico para todas as relações determinadas.


RESULTADOS

Obtiveram-se 665 questionários e foram validados 638. A amostra é caracterizada na Tabela 1 em relação a variáveis demográficas e de uso de internet.


Gráfico 1. Incidência de uso patológico e borderline de internet, segundo a classificação de Young.




Verifica-se um predomínio do sexo feminino (57%), sendo a média de idades dos inquiridos de 15 anos. Mais de metade dos participantes frequentava o 3º ciclo de ensino (59%). Apenas dois adolescentes não possuíam computador no domicílio (0,05%), sendo a maioria dos inquiridos detentores de computador para uso pessoal (72%). Cerca de 38% dos inquiridos possuem computador no seu quarto e 44% têm computador portátil, pelo que o poderão usar livremente pela casa. Daqueles com computador no domicílio, apenas 4% não dispunham de ligação à internet.

O local mais frequentemente referido para acesso à internet foi o domicílio (96%) e a escola (23%), sendo esta última referida sobretudo pelos alunos do ensino secundário (a<0,001). A quase totalidade dos adolescentes inquiridos já contata a internet há mais de 1 ano (95%).

Relativamente à frequência de utilização, 20% dos participantes são UII, tendo-se encontrado uma diferença estatisticamente significativa entre gêneros (a<0,05,♂>♀).

Quando questionados em que atividades on-line despendem mais tempo diariamente3 (1 hora/dia), as opções mais frequentemente preferidas foram: as redes sociais (48%), a troca instantânea de mensagens (42%) e a consulta de sites (22%). A consulta do correio eletrônico (14%) e as salas de conversação (7%) foram as menos referidas. Encontraram-se diferenças estatisticamente significativas neste aspecto: o gênero feminino despende mais tempo nas redes sociais (a<0,001,♀>♂) e na troca de mensagens (a<0,05,♀>♂), enquanto os alunos do 3º ciclo de ensino despendem mais tempo na consulta do correio eletrônico (a<0,001, 3º ciclo>secundário), nas redes sociais (a<0,001, 3º ciclo>secundário) e na troca de mensagens (a<0,05, 3º ciclo>secundário).

Os sites mais frequentemente visitados foram os de música (82%), entretenimento (63%), os relacionados com temáticas escolares (52%) e os jogos (49%). Os sites para adultos (10%) e aqueles que abordam temas de saúde (4%) foram os menos referidos pelos participantes. Foram encontradas diferenças estatisticamente significativas neste aspecto, nomeadamente entre gêneros: as meninas visitam mais frequentemente sites musicais (a<0,001), com temáticas escolares (a<0,001) e de compras (a<0,001); enquanto os rapazes preferem os jogos on-line (a<0,001), sites de informação (a<0,001) e para adultos (a<0,001). Mas também se constataram diferenças entre grau de escolaridade: os alunos do secundário referem visitar mais frequentemente sites que abordem temas relacionados com trabalhos escolares (a<0,001), de informação (a<0,001) e de saúde (a<0,001).

A existência de regras para utilização de internet no domicílio foi referida por 28% dos participantes, sendo 81% destes alunos frequentadores do 3º ciclo de ensino (a<0,001). As regras mais frequentemente mencionadas foram: "Não podes falar com desconhecidos" (46%), "Tens um tempo limitado para o uso de internet" (45%) e "Não podes usar a internet durante as noites dos dias de semana" (31%).

Na Tabela 2 estão resumidas as principais características de comunicação da rede na amostra em estudo.




A forma de comunicação mais frequentemente utilizada é a escrita (93%), sendo usada "muitas vezes" para estabelecer contato com amigos próximos (57%) ou com outros adolescentes da mesma idade com quem convivem raramente (14%), mas também com familiares próximos (11%). A comunicação com desconhecidos da mesma idade ou "mais velhos" é referida, independentemente da frequência com que é estabelecida, por 32% e 19% dos inquiridos, respectivamente. Estes dados correspondem sobretudo a alunos do 3º ciclo de ensino (60%), sendo a diferença estatisticamente significativa entre gêneros, com os rapazes referindo-se mais frequentemente ao contato com desconhecidos (a<0,001). Relativamente à frequência com que se comunicam com desconhecidos, 7% referem fazê-lo "muitas vezes" ou de forma regular. Entre estes, também os alunos do 3º ciclo de ensino (67%) e os rapazes (63%), dizem o mesmo mais frequentemente, encontrando-se diferenças estatisticamente significativas entre gêneros (a<0,001). O primeiro contato com desconhecidos on-line é estabelecido geralmente através de amigos/colegas (38%), redes sociais (37%) ou de familiares (35%). Em 3% dos inquiridos, o primeiro contato aconteceu em "salas de conversação".

No que respeita à exposição on-line, a maioria dos adolescentes revela o seu nome (89%), a sua idade (67%) e publica fotos em redes sociais (63%). As diferenças entre gêneros são estatisticamente significativas: as meninas mais frequentemente publicam fotos (a<0,05) e os rapazes revelam o nome, número de celular e endereço de correio eletrônico com maior frequência (a<0,05). Os alunos do ensino secundário mais frequentemente revelam o nome, idade, escola que frequentam e publicam fotos on-line (a<0,001).

A troca de identidade on-line é referida por 21% dos participantes, que o fazem como forma de diversão (69%). A troca de identidades é menos frequentemente usada porque o adolescente "gostava de ser outra pessoa" (8%) ou porque considera que, de outra forma, "não falariam com ele/ela" (9%).

Cerca de 6% dos inquiridos já marcaram um encontro com alguém que conheceram on-line e 2% já o fizeram várias vezes. Entre os participantes que afirmam tê-lo feito, não se verificaram diferenças entre sexos, mas constatou-se que a maioria frequentava o ensino secundário (61%) (a<0,05).

Aplicando a EDIY determinou-se que oito inquiridos apresentavam um padrão de UPI (1,2%), sendo majoritariamente meninas (75%) e alunos do 3º ciclo de ensino (88%). Cerca de 18% dos participantes apresentam um padrão de UBI, sendo sobretudo rapazes e alunos do 3º ciclo de ensino. Considera-se, então, que 19,2% apresentam um UNSI.

A Tabela 3 apresenta as características de utilização dos participantes com "uso saudável" e com UNSI. Verificaram-se diferenças estatisticamente significativas entre gêneros (a<0,001), tempo de utilização semanal (a<0,001), troca de identidade (a<0,001), marcação de encontros com desconhecidos (a<0,001), grau de exposição on-line, nomeadamente na revelação da idade (a<0,05), morada (a<0,001), escola que frequenta (a<0,05) e número de celular (a<0,001).




DISCUSSÃO

Os adolescentes portugueses da amostra em estudo parecem acompanhar a tendência mundial de crescente familiarização com as novas tecnologias. Assim, verificou-se que a esmagadora maioria dos inquiridos já possui computador no domicílio com ligação à internet. De fato, a totalidade dos participantes refere já ter contato com esta tecnologia, a maioria com história de mais de um ano de utilização. Isto poderá ser explicado pelos programas estatais desenvolvidos nos últimos anos, incentivando a aquisição de computadores portáteis com acesso à internet pelos alunos, com preços ajustados aos rendimentos familiares10.

Sendo o domicílio o local de acesso privilegiado à internet, constatou-se, na maioria dos inquiridos, a inexistência de regras de utilização, o que poderá justificar-se pelo desconhecimento dos pais dos riscos inerentes ao seu uso, mas também pela sensação de falsa segurança causada pelo fato de seus filhos estarem em casa e, aparentemente protegidos dos perigos do "mundo exterior".

Esta ausência de mediação parental deve ser encarada com preocupação, embora seja difícil determinar o seu papel real na redução dos riscos a que se expõem as crianças e adolescentes na internet11. De acordo com alguns estudos, as crianças cujos pais monitorizam as suas atividades on-line são menos susceptíveis a revelar informações pessoais, a procurar sites inapropriados e a estabelecer conversas com estranhos12. De fato, segundo os dados do estudo europeu EU Kids Online, que reuniu crianças e adolescentes com idades entre os 9 e os 16 anos dos vários países integrantes da União Europeia, os inquiridos portugueses figuram entre os que mais desejam que seus pais mostrem interesse pelas suas atividades.

Neste estudo, 51% dos adolescentes utilizam a internet diariamente, e destes, 73% por um período superior a 1 hora diária, o que faz do computador uma parte importante do quotidiano dos inquiridos. Comparativamente com o estudo de Bélanger, verificou-se um valor elevado de UII entre os participantes da amostra6. Contudo, mantêm-se as tendências descritas em vários estudos: o gênero masculino apresenta valores mais elevados de UII, assim como os adolescentes mais novos (3º ciclo de ensino)3,6.

A internet é considerada como local primordial de socialização e entretenimento para os adolescentes13,14. Os participantes da amostra usam preferentemente as redes sociais e a troca de mensagens eletrônicas. Cerca de metade dos participantes refere utilizar a internet para jogar, valor inferior ao encontrado em outros estudos13,15.

Apesar dos sites mais frequentemente visitados estarem relacionados com atividades de lazer (sites de música e entretenimento), mais de metade dos inquiridos informa que utiliza a internet para realização de pesquisa para tarefas escolares, confirmando o papel desta tecnologia no contexto educativo.

Verificou-se também que a internet é ainda pouco utilizada como fonte de informação com relação a temas de saúde, comparativamente com o estudo Generation Rx de 2001, em que, analisando apenas os adolescentes entre os 15-17 anos que pertenciam a essa amostra, 68% afirmavam já ter usado alguma vez a internet para esse fim16. Essa diferença pode ser explicada, em parte, pelo fato da nossa amostra apresentar uma média de idades mais baixa do que a do estudo em questão, mas tal fato não explicará tão grande diferença percentual entre os dois estudos.

Os adolescentes da amostra usam a internet para comunicação frequente com os colegas e amigos, aproveitando este recurso para reforçar as relações que já mantêm off-line. Por outro lado, a facilidade da comunicação através da rede poderá condicionar os adolescentes a preferir esta forma de contato em detrimento da relação "cara a cara".

A comunicação com desconhecidos off-line foi referida por quase um terço dos inquiridos, sendo mais frequente no 3º ciclo e no sexo masculino. O fato de serem os adolescentes "mais novos" a terem mais contato com desconhecidos contraria a tendência demonstrada no estudo Eu Kids Online, levantando importantes preocupações em termos de segurança, nomeadamente o risco de exposição a predadores, pois trata-se de uma faixa etária mais susceptível13 . Comparativamente ao mesmo estudo, a frequência deste tipo de comunicação na amostra é superior (32% versus 25%), mesmo excluindo os inquiridos com idade superior a 16 anos14.

Cinquenta e um inquiridos referiram já terem marcado encontros com alguém que haviam conhecido on-line, o que revela que apenas um valor residual de relações on-line transita para o universo off-line, o que está de acordo com a literatura17. Contudo, este valor é preocupante, pois 2% dos adolescentes referem ter já marcado diversos encontros off-line.

Relativamente à exposição on-line, verificou-se que os inquiridos divulgam grande quantidade de informação pessoal na rede. Cada nove em dez inquiridos revela o seu nome on-line e cerca de dois terços revelam a idade. A colocação de fotos on-line é também muito frequente, justificada pela massificação das câmaras digitais e os celulares com câmara fotográfica. A adoção destes comportamentos de risco é frequente entre adolescentes "mais velhos" e, no caso da divulgação de fotografias na rede, são as meninas as mais fãs desta atividade, tal como é descrito na literatura18.

Achados na literatura têm apontado no sentido da internet constituir para os adolescentes um palco para a experimentação da sua identidade14. Os adolescentes parecem apresentar grande flexibilidade em assumir novas identidades em múltiplos contextos sociais e psicológicos, sendo diversas as motivações por detrás destas representações14. Neste estudo atual, a troca de identidades foi referida majoritariamente como forma de diversão, ocorrendo numa percentagem baixa de inquiridos comparativamente com a literatura14.

Aplicando a EDIY, determinou-se uma incidência de UPI de 1,2%, semelhante à encontrada no estudo grego3, e inferior à de outros estudos19,20. A percentagem de meninas com UPI foi superior à de rapazes, o que contraria o encontrado na literatura3,19,20. Contudo, entre os inquiridos com UBI, existe um predomínio do gênero masculino.

Em nosso estudo, apurou-se uma proporção significativa de UBI, o que incita à adoção urgente de medidas de prevenção, para evitar futuros padrões de uso abusivo. Este valor de UBI pode ser explicado pelo elevado nível de penetração desta tecnologia na população portuguesa, pela ausência de regras em seu uso, mas também pode ser ocasionado por outros fatores culturais, sociais e psicológicos.

Assim, apresenta-se o perfil do participante com UNSI: rapaz, 3º ciclo de ensino, detentor de computador pessoal em seu quarto ou portátil, usuário de internet há mais de 2 anos, com um tempo médio de 15 horas de uso semanal3, o qual acede à internet geralmente do domicílio, onde nega existirem regras de utilização. Usa a internet geralmente para socialização (redes sociais e troca de mensagens) e de entretenimento (jogos on-line, sites de adultos), revela informações pessoais na rede e refere estabelecer contato com desconhecidos.

Nos inquiridos com UNSI, são identificáveis diversos fatores (ausência de regras, local de acesso à internet, tempo despendido on-line, partilha de informação pessoal e contato com desconhecidos) que podem ser o ponto de partida para o estabelecimento de programas de prevenção de comportamentos de risco em termos de segurança dos adolescentes usuários desta tecnologia, mas também como forma de exclusão de futuros padrões de uso patológico.


CONCLUSÕES

Neste estudo verificaram-se comportamentos de risco e padrões alarmantes do uso de internet. Determinou-se uma percentagem reduzida de utilização abusiva de internet comparativamente com outros países, mas apurou-se uma proporção significativa de uso borderline, o que incita à adoção premente de medidas de prevenção.


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