Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 10 Supl. 3 - Out - 2013

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Páginas 16 a 22


Sintomatologia psiquiátrica e violência em adolescentes usuários de um CAPSi

Psychiatric symptomatology and violence in adolescents users of a CAPSi


Autores: Letícia Saldanha de Lima1; Hericka Zogbi Jorge Dias2; Cristiane Camponogara Baratto3; Gabriela Zuchetto4

1. Mestre em Psicologia. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS, Brasil. Docente em Curso de Psicologia. Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Santa Cruz do Sul, RS, Brasil
2. Doutora em Psicologia. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC/RS). Docente e coordenadora do curso de Psicologia. Laureate International Universities (Uniritter). Porto Alegre, RS, Brasil
3. Estudante de Psicologia. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS, Brasil
4. Graduaçao em Psicologia. Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Santa Maria, RS, Brasil

Letícia Saldanha de Lima
Rua Veríssimo Rosa, nº 321, apto 804
Porto Alegre, RS, Brasil. CEP: 90610-280
lesaldanha@gmail.com

Recebido em 06/06/2013
Aprovado em 26/08/2013

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Como citar este Artigo

Descritores: Saúde mental, adolescente, violência.
Keywords: Mental health, adolescent, violence.

Resumo:
OBJETIVO: Este artigo visa investigar a ocorrência de sintomatologia psiquiátrica e violência contra os adolescentes usuários de um CAPSi da regiao sul do Brasil.
MÉTODOS: Trata-se de um estudo transversal e descritivo, no qual a amostra foi composta por 33 adolescentes, 18 (54,1%) meninos e 15 (45,9%) meninas. Os instrumentos utilizados foram uma ficha de dados sociodemográficos, o Self-Report Questionnaire (SRQ-20) (Mary & Williams, 1986) e a verificaçao verbal de violência.
RESULTADOS: Entre os principais resultados, foi levantado que 15 (46,7%) adolescentes apresentam sintomatologia psiquiátrica, assim como 9 (27,3%) jovens indicam ter sofrido episódios de violência. Observou-se, ainda, que 4 (26,7%) adolescentes apresentaram níveis de sintomatologia psiquiátrica merecedora de atençao e também sofreram violência (p=0,06).
CONCLUSAO: Desta forma, reforça-se a necessidade de um maior aprofundamento na investigaçao dos aspectos sintomatológicos em adolescentes de CAPSi com vistas à promoçao da saúde mental desta populaçao.

Abstract:
OBJECTIVE: The following paper aimed to investigate the occurrence of psychiatric symptomatology and violence in adolescents users of a CAPSi in southern Brazil.
METHODS: This is a descriptive cross-sectional study, in which the sample was composed of 33 adolescents, 18 (54.1%) boys and 15 (45.9%) girls. The instruments applied were a demographic data sheet, the Self-Report Questionnaire (SRQ-20) (Mary & Williams, 1986) and verbal verification of violence.
RESULTS: Amongst the key results, it has been learnt that 15 (46.7%) adolescents have had psychiatric symptoms, and 9 (27.3%) indicated having suffered episodes of violence. It also showed that 4 (26.7%) adolescents had higher levels of psychiatric symptomatology deserving attention and also suffered violence (p = 0.06).
CONCLUSION: Thus, the need is reinforced for a further investigation of the aspects of symptomatology in adolescents of a CAPSi with a view to promoting the mental health of this population.

INTRODUÇAO

Os problemas de saúde mental na infância e adolescência apresentam uma prevalência que varia de 10 até 20% de casos1,2. A partir deste dado, torna-se necessária a investigaçao da situaçao atual da saúde mental dos adolescentes brasileiros em suas diferentes realidades. Este artigo é oriundo dos trabalhos desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa Psicologia das Relaçoes e Saúde, que desenvolveu atividades de pesquisa, extensao e estágios em um Centro de Atençao Psicossocial infanto-juvenil (CAPSi). O CAPS tem como objetivo geral oferecer atençao integral em saúde mental para crianças e adolescentes que apresentem transtornos mentais3. Conhecer as vivências dos usuários deste local torna-se imprescindível para uma atençao integral e para a prevençao em saúde.

Um aspecto merecedor de atençao, dentro dessa integralidade, é a violência contra a criança e o adolescente. Esta temática começou a ser evidenciada com o surgimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)4, a partir da promulgaçao da Lei Federal nº 8069 de 13/07/1990, o qual torna essa populaçao sujeitos de direitos e os ampara tanto nas situaçoes de violência como em outras. A violência é definida como o uso de força física ou poder, em ameaça ou na prática, contra si próprio, outra pessoa ou contra um grupo ou comunidade, que resulte, ou possa resultar, em sofrimento, morte, dano psicológico, desenvolvimento prejudicado ou privaçao5.

Vejamos o Mapa da Violência 20126 com taxas e valores relativos à violência contra crianças e adolescentes no Brasil: neste documento consta que, a cada 100 mil atendimentos de jovens com idade entre 1 e 19 anos em 2011, 12.825 casos foram referentes à violência física; destes casos, 5.354 sao vítimas do sexo masculino e 7.471 do sexo feminino. Ainda com relaçao à violência física, concluiu-se que, na faixa etária de 10 a 14 anos, 50,1% dos casos atendidos corresponderam ao sexo feminino e 49,9% corresponderam ao sexo masculino. Já na faixa etária dos 15 aos 19 anos, 48,9% sao do sexo feminino e 51,1% do sexo masculino.

O período de 12 a 18 anos corresponde à fase da adolescência4. Nesta fase ocorrem transformaçoes de aspectos corporais, emocionais e sociais, caracterizando uma fase de conflito e de busca pela construçao de uma identidade7,8. Com isso, a violência pode ser vista como um fator de risco no desenvolvimento destes jovens9, 10. Quando a criança ou adolescente comunica o fato de ter sido vítima de violência, pode já ter passado muito tempo, consolidando consequências em nível emocional, de estruturaçao da personalidade e nível cognitivo11. Com isso, pode-se pensar que estes atos de violência, na adolescência, geram implicaçoes negativas e impactam na construçao da identidade destes jovens12, 13. Desta forma, este artigo tem como objetivo apresentar os dados referentes à sintomatologia psiquiátrica e violência contra os adolescentes atendidos em um CAPSi localizado na regiao sul do Brasil.


MÉTODOS

Trata-se de pesquisa transversal, de caráter descritivo e de abordagem quantitativa.

Participantes

Foram avaliados 33 adolescentes atendidos pelo CAPSi. As faixas etárias utilizadas neste estudo se referem às estabelecidas pelo ECA4, no qual se salienta que adolescentes sao aqueles categorizados entre 12 e 18 anos de idade. Foram acessados todos os adolescentes em atendimento no CAPSi no período da coleta de dados, em 2011.

Instrumentos

  • Ficha de Dados Sociodemográficos: Esse instrumento foi adaptado a partir do utilizado no estudo "Os CAPS e os cuidados psicossociais: cenários e possibilidades na evoluçao dos portadores de sofrimento psíquico em Pelotas-RS" (CNPq - Edital 07/2005 Saúde Mental - Processo: 554554/2005-4, sob a coordenaçao da Dra. Elaine Tomasi UCPEL/UFPEL).
  • Questionário do Usuário: Nesse questionário foram abordadas questoes como: aspectos referentes à saúde do usuário, medicamentos utilizados e sua periodicidade, rotina do usuário, níveis escolares, satisfaçao com o atendimento no CAPSi, entre outras informaçoes.
  • Self-Report Questionnaire (SRQ-20)14: O SRQ é um instrumento multidimensional, estruturado para uma entrevista psiquiátrica com fins diagnósticos. É constituído de 20 perguntas, que podem ser completadas através de entrevista ou de autopreenchimento. O SRQ-20 foi criado para ser aplicado em países em desenvolvimento e apresenta padroes psicométricos bastante satisfatórios, com especificidade de 77% e sensibilidade de 76%, sendo validado para uso no Brasil. O ponto de corte sugerido pelos autores na adaptaçao brasileira é de 8 pontos. Assim, acima de 8 indica sintomatologia psiquiátrica14,15. A consistência interna obtida através do Coeficiente de Cronbach mostrou-se satisfatória (0,86).
  • Verificaçao de violência: Foi verificada de forma verbal junto à equipe técnica de referência e, quando possível, junto ao adolescente, a ocorrência de atos de violência contra os mesmos. As respostas foram categorizadas em sim e nao, para a ocorrência de violência física.


  • Procedimento para a análise dos dados

    Para a realizaçao da análise estatística foram utilizados: Estatística Descritiva (Média, Moda, Mediana, Frequências e Percentuais), Teste Nao Paramétrico Qui-Quadrado, com nível de significância estatística sempre que p<0,05 (5%). Os cálculos foram realizados através de pacote estatístico SPSS 19.0.

    Procedimentos éticos

    O projeto desta pesquisa foi analisado e aprovado, sem restriçoes, pelo Comitê de Ética da Universidade Federal de Santa Maria.


    RESULTADOS E DISCUSSOES

    Características Sociodemográficas Esta pesquisa obteve como participantes 18 (54,1%) adolescentes do sexo masculino e 15 (45,9%) adolescentes do sexo feminino, conforme indicado na Tabela 1. Observou-se que a maioria dos participantes é do sexo masculino (54,1%). Esse dado corrobora outros estudos, que também apontaram o sexo masculino como predominante nos CAPSi (Silveira, Vargas, Reis & Silva, 2011)16. Quanto às idades dos usuários do CAPSi, verificou-se que a média de idade foi de 14 anos (Dp= 1,81), sendo que a faixa etária dos 14 aos 15 anos (45,5%) com maior concentraçao. Essa informaçao nao se torna comum nos estudos analisados anteriormente, uma vez que em alguns CAPS sao atendidas somente crianças. Além disso, nao há uma orientaçao clara sobre o local de encaminhamento e atendimento dos adolescentes; esses jovens acabam sendo atendidos em diferentes centros de atençao à saúde mental16.




    Sintomatologia Psiquiátrica de acordo com o SRQ-20

    Para a investigaçao acerca da ocorrência de sintomatologias psiquiátricas, foram avaliados 33 adolescentes entre 14 e 18 anos, idade esta que corresponde ao indicado pelo instrumento.

    Para a correçao deste instrumento, foi utilizado como ponto de corte o escore 8, que indica ocorrência de sintomatologia psiquiátrica merecedora de atençao 14,15. Na presente amostra, foi obtido o escore médio de 8,3 e o desvio padrao de 4,21. Essa média amostral sugere a presença de sintomatologia psiquiátrica merecedora de atençao. Sao apresentadas as frequências e percentuais referentes ao SRQ-20 na Tabela 2.




    A partir dos dados do presente estudo, observa-se que mesmo que a maioria dos adolescentes, 18 (53,3%), nao apresente sintomatologia psiquiátrica significativa, há um percentual igualmente alto de 15 (46,7%) que apresenta. Contudo, é importante observar que esses jovens, que apresentam sintomatologias psiquiátricas, estao sendo atendidos em um local proposto para essa finalidade, o CAPSi. Por outro lado, é importante refletir e voltar o olhar para os 53,3% de adolescentes que nao apresentam sintomatologia psiquiátrica e estao em atendimento no mesmo local. Esse aspecto evidencia a necessidade de maior atençao às reais demandas e necessidades dos usuários do local, possibilitando, assim, um atendimento mais singular ao usuário que necessita desse local e encaminhando os que necessitam de outras formas de apoio para centros de saúde específicos.

    Referente ao sexo que apresenta maior prevalência de sintomatologia psiquiátrica, foi constatado no presente trabalho que: das 15 adolescentes do sexo feminino do presente trabalho, 11 (80%) apresentavam sintomatologia psiquiátrica, pontuando uma média de 9,6 e um desvio padrao de 3,43. Já referente aos 18 adolescentes do sexo masculino, constatou-se que 4 (26,7%) apresentavam sintomatologia psiquiátrica, pontuando uma média de 8,0 e um desvio padrao de 4,61. Com isso, percebe-se que as meninas participantes da presente pesquisa estao apresentando maiores indícios de sintomatologias psiquiátricas que os meninos12, 17.

    Com o intuito de observar em maior detalhe como se constituem as sintomatologias psiquiátricas, buscou-se analisar as questoes do SRQ-20 respondidas pelos participantes do presente estudo. Foi possível levantar as frequências de ocorrência das 20 questoes que constituem o instrumento, sendo possível identificar aquelas que possuíam maior prevalência. Observou-se que 14 adolescentes (70%) sentem-se "nervosos, tensos e preocupados", 7 (56,7%) "têm se sentido triste ultimamente", 6 (53,3%) apresentam dores de cabeça, 6 (53,3%) "têm dificuldade em tomar decisoes". Essas informaçoes mostram em que áreas os jovens apresentam maiores dificuldades.

    Por outro lado, o instrumento também apresenta aspectos positivos, relacionados à promoçao de saúde como autoestima e autoconceito dos jovens. Observou-se que 26 (86,7%) adolescentes responderam que "nao sao incapazes de desempenhar um papel útil em suas vidas", 22 (73,3%) jovens responderam que "nao se sentem uma pessoa inútil (sem préstimo)" e 19 (63,3%) adolescentes "nao têm perdido o interesse pelas coisas". Outro aspecto merecedor de atençao foi quanto à questao "tem ideia de acabar com sua vida": 56,7% responderam que "nao", e 43,3 % responderam que "sim". A questao de ideaçao suicida torna-se importante para uma reflexao acerca de seu percentual: em uma amostra de 33 adolescentes, 43,3% apresentam tal comportamento.

    Assim como os aspectos sintomatológicos necessitam de um maior empenho na hora da realizaçao de uma intervençao, do mesmo modo, maior atençao é necessária em relaçao à violência, que cada vez mais se apresenta como uma realidade a todos, podendo implicar em marcas na construçao emocional e psicossocial desses sujeitos13. Com isso, partimos para a apresentaçao dos dados referentes à ocorrência de violência no CAPSi.

    Violência de acordo com o relato dos técnicos do CAPSi

    Com o objetivo de verificar a ocorrência de violência no cotidiano dos usuários do CAPSi, optou-se por realizar um levantamento sobre a ocorrência desse fenômeno junto aos técnicos do serviço de atendimento à saúde mental, responsáveis pelos jovens. Foi perguntado aos profissionais se tiveram conhecimento da ocorrência de violência na história de vida dos adolescentes usuários do CAPSi. Na Tabela 3 apresentam-se as informaçoes obtidas junto a esses profissionais.




    A partir do relato dos técnicos, nota-se que a percentagem que apresenta histórico de violência, 9 (27,3%), é menor do que a que nao apresenta, 14 (42,4%). Tal dado mostra-se diferenciado frente às altas taxas de atos de violência contra adolescentes brasileiros6,18. Porém, os adolescentes que nao sabem/nao responderam (30,3%) representam uma informaçao relevante, levando à necessidade de melhor investigaçao dos reais motivos que contribuíram para esta informaçao. Ainda é importante voltar a atençao aos participantes que vivenciaram algum tipo de violência, uma vez que tais atos causam implicaçoes negativas no desenvolvimento humano de crianças e adolescentes13,19. A partir do momento em que sofre violência, a criança ou adolescente pode apresentar alguns sinais: dificuldades em expressar-se, pouca confiança no ambiente em que convive, pouca ambiçao e baixa autoestima sao alguns dos indicadores de presença de violência na vida de crianças e adolescente. Esses mesmos autores afirmam que tais sentimentos podem levar o indivíduo ao desenvolvimento de sintomatologias depressivas.

    A seguir serao apresentadas informaçoes sobre a presença de sintomatologia psiquiátrica e a exposiçao à violência nos adolescentes usuários do CAPSi. Lembramos que esses dados sao relativos a 33 adolescentes que responderam o SRQ-20 (Tabela 4).




    A partir da tabela 4 é possível observar que 4 (26,7%) adolescentes apresentaram níveis de sintomatologia psiquiátrica merecedora de atençao e também sofreram violência, frente a 3 (21,4%) adolescentes que sofreram violência, contudo nao apresentaram sintomatologia psiquiátrica merecedora de atençao. Esse resultado foi submetido ao teste nao paramétrico Qui-quadrado e nao apresentou diferença estatística significativa (p=0,74). A presença de puniçao física grave contra crianças e ado lescentes é um fator de risco para problemas de saúde mental nos jovens estudados, ficando evidente a associaçao da violência à sintomatologia psiquiátrica13.

    Com a finalidade de investigar qual gênero apresentou mais eventos de violência, foi realizado teste nao paramétrico Qui-quadrado. Os resultados estao expostos na Tabela 5.




    Foi observado que 11 (60%) meninos nao passaram por eventos de violência, e 7 (40%) sofreram episódios de violência. Quanto às meninas, 13 (87,5%) nao relatam tais eventos, em contraposiçao às duas (12,5%) adolescentes que têm esse fato referido pelos técnicos. Embora a diferença entre os gêneros nao seja estatisticamente significativa (p=0,06), nota-se que o nível significativo é próximo ao ponto de significância estatística estabelecido para o presente trabalho, que é de p<0,05. Com isso, as meninas participantes sao mais expostas a eventos de violência12.


    CONSIDERAÇOES FINAIS

    A temática da violência contra jovens é recente nas discussoes científicas e ainda é cercada de questionamentos, principalmente relativos às implicaçoes na vida desse jovem e no seu entorno. Muito ainda deve ser feito, visando um entendimento dos profissionais envolvidos no atendimento e acompanhamento destes jovens.

    Com este artigo, foi possível refletir acerca da realidade dos adolescentes usuários do CAPSi de Santa Maria sem responder perguntas, mas alimentando-as na medida em que se traz dados conflitantes com outras pesquisas. Por isso, torna-se relevante o desenvolvimento de projetos acadêmicos semelhantes ao que originou o presente artigo, intitulado como PROCONVIVE (Projeto de implantaçao do espaço de convivência permanente para crianças usuárias de um CAPSi), que se insiram nos serviços de saúde, enquanto pesquisa e extensao, para promover mudanças e, além disso, trazer seus resultados para conhecimento científico, contribuindo, assim, para a prática das equipes envolvidas nos atendimentos desta populaçao.

    Cabe destacar os resultados provenientes da investigaçao de sintomatologia psiquiátrica e episódios de violência: 4 (26,7%) dos adolescentes apresentam histórico de violência e sintomatologia psiquiátrica. Mesmo que esse número se mostre discreto, indica que a violência pode sim, estar atrelada à sintomatologia psiquiátrica13, 19. Outro resultado merecedor de atençao refere-se ao dado de que 80% (média de 9,6 e desvio padrao de 3,43) das meninas apresentaram indícios de sintomatologia psiquiátrica, corroborando com estudos atuais17,19. Este resultado abre perspectivas de futuras investigaçoes acerca das implicaçoes de gênero no surgimento de transtornos mentais.

    Assim, evidenciamos os benefícios em estudar mais profundamente a populaçao em questao. Novos estudos, com outras metodologias, poderao gerar ainda mais informaçoes, que contribuirao para o aperfeiçoamento do atendimento à saúde mental de adolescentes. Contudo, concluímos que o presente artigo contribui com o entendimento da populaçao abordada neste trabalho, com o seu planejamento terapêutico e com o serviço, na medida em que estes dados contribuam para o trabalho desempenhado no CAPSi. A melhor forma de formular planos de tratamento é conhecer a realidade e especificidades da populaçao atendida, atingindo, assim, a integralidade ligada à individualidade.


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