Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 9 nº 3 - Jul/Set - 2012

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Páginas 47 a 55


Hábitos alimentares e comportamentos inadequados para controle de peso em adolescentes frequentadores de academias de ginástica

Eating habits and inappropriate behavior for weight control in adolescents enrolled in gyms

Hábitos alimenticios y comportamientos inadecuados para control de peso en adolescentes frecuentadores de academias de gimnasia


Autores: Carolina Carvalho de Oliveira1; Telma Maria Braga Costa2; Maria Fernanda Laus3

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, hábitos alimentares, dieta, suplementos dietéticos, exercício.
Keywords: Add habits, diet, dietary supplements, exercise.
Palabra Clave: Adolescente, hábitos alimenticios, dieta, suplementos dietéticos, ejercicio.

Resumo:
OBJETIVO: Avaliar os hábitos alimentares de adolescentes que praticam regularmente exercícios físicos com finalidades estéticas e a opinião dos mesmos sobre o seu comportamento alimentar, além da frequência de comportamentos inadequados para controle de peso.
MÉTODOS: Participaram do estudo 104 adolescentes (61 meninos e 43 meninas), com idade média igual a 18 anos (± 1,55), regularmente matriculados em academias de ginástica. A coleta de dados consistiu na aplicação do Questionário de Hábitos Alimentares e de um Questionário de Frequência Alimentar.
RESULTADOS: A maioria dos entrevistados relatou a realização de quatro refeições diárias e uma adequação no consumo dos principais grupos de alimentos. Observou-se que cerca de 80% dos adolescentes consideram sua alimentação boa ou média e o hábito/costume foi o principal motivo alegado para não se alimentarem melhor. A prática de dietas para perda de peso foi relatada por 81,4% das meninas e a utilização de suplementos e/ou anabolizantes, por 44,3% dos meninos, sendo estes comportamentos realizados sem adequada orientação profissional.
CONCLUSÃO: De maneira geral, os adolescentes entrevistados possuem hábitos alimentares saudáveis, mas utilizam indiscriminadamente comportamentos inadequados para controle de peso, que, sem a correta orientação, podem trazer prejuízos à saúde.

Abstract:
OBJECTIVE: To evaluate the eating habits of adolescents regularly engaging in physical exercises designed to improve their appearance, and their opinions on their eating behaviors, as well as the frequency of types of behavior that are inappropriate for weight control.
METHolescent, fooODS: A total of 104 adolescents (61 boys and 43 girls) took part in the study; mean age 18 years old (±1.55) enrolled in fitness centers. The data were collected by Questionnaires completed by them on Eating Habits and Food Frequency.
RESULTS: most of the respondents reported eating four meals a day with adequate consumption of the major food groups. Some 80% of these adolescents rated their eating habits as good or fair and habit/custom was the main reason given for not eating better. Following diets in order to lose weight was reported by 81.4% of the girls and the use of supplements and/or steroids by 44.3% of boys, without proper professional guidance.
CONCLUSION: In general, the adolescents interviewed have healthy eating habits, but make indiscriminate use of inappropriate behavior in order to control their weight, which could jeopardize their health without proper guidance.

Resumen:
OBJETIVO: Evaluar los hábitos alimenticios de adolescentes que practican regularmente ejercicios físicos con finalidades estéticas y la opinión de los mismos sobre su comportamiento alimenticio, además de la frecuencia de comportamientos inadecuados para control de peso.
MÉTODOS: Participaron del estudio 104 adolescentes (61 chicos y 43 chicas), con edad promedio igual a 18 años (± 1,55), regularmente matriculados en academias de gimnasia. La recolección de datos consistió en la aplicación del Cuestionario de Hábitos Alimenticios y de un Cuestionario de Frecuencia Alimenticia.
RESULTADOS: La mayoría de los entrevistados relató la realización de cuatro comidas diarias y una adecuación en el consumo de los principales grupos de alimentos. Se observó que cerca del 80% de los adolescentes consideran su alimentación buena o media y el hábito/costumbre fue el principal motivo alegado para no alimentarse mejor. La práctica de dietas para pérdida de peso fue relatada por 81,4% de las niñas y el uso de suplementos y/o anabolizantes, por 44,3% de los chicos, siendo estos comportamientos realizados sin adecuada orientación profesional.
CONCLUSIÓN: De manera general, los adolescentes entrevistados poseen hábitos alimenticios saludables, pero utilizan indiscriminadamente comportamientos inadecuados para control de peso que, sin la correcta orientación, pueden traer perjuicios a la salud.

INTRODUÇÃO

Durante a adolescência a alimentação adquire um papel fundamental. Nesta fase, as necessidades de energia e nutrientes aumentam para poder proporcionar um crescimento adequado e o número de fatores ambientais que intervêm no processo de crescimento é muito variado, não havendo dúvidas de que um dos mais importantes é a nutrição. O conhecimento da importância de hábitos saudáveis e da prática de atividade física regular também é imprescindível para a manutenção da saúde.

A atividade física regular tem sido reconhecida por seus efeitos saudáveis nos praticantes. Além dos benefícios imediatos atribuídos à realização de esforços físicos adequados na infância e adolescência, evidências apontam que as experiências positivas associadas à prática de atividades físicas vivenciadas nessas idades se caracterizam como importantes atributos no desenvolvimento de atitudes, habilidades e hábitos que podem auxiliar futuramente na adoção de um estilo de vida fisicamente ativo na idade adulta1.

Entretanto, em ambientes como as academias de ginástica, a procura pela prática de exercícios físicos parece ser motivada principalmente por fatores estéticos, pela meta de se obter um corpo ideal2, 3, e não apenas por seus efeitos benéficos. Muitos adolescentes praticantes de modalidades esportivas, ou mesmo frequentadores de academias, procuram na nutrição e na atividade física uma forma de solução para o excesso de peso, sobretudo da gordura corporal, mesmo quando não estão acima do peso. Além disso, as dietas para perda de peso também são frequentemente realizadas, assim como a utilização de recursos ergogênicos, como forma de se obter um corpo ideal e ampliar os efeitos do treinamento.

Os hábitos alimentares e de atividade física adquiridos na infância e na adolescência são de extrema importância, já que tendem a permanecer na vida adulta. Para tanto, faz-se necessária a identificação dos hábitos inadequados e suas populações de risco para a implementação de intervenções eficientes3.

Portanto, o objetivo deste estudo foi avaliar os hábitos alimentares de adolescentes que praticam regularmente exercícios físicos com finalidades estéticas e a opinião dos mesmos sobre o seu comportamento alimentar, além da frequência de comportamentos inadequados para controle de peso.


MÉTODOS

Amostra


Trata-se de um estudo transversal conduzido em uma amostra de conveniência de 104 adolescentes (61 meninos e 43 meninas). Para garantir a representatividade da amostra, os adolescentes foram recrutados em seis academias de ginástica localizadas em todas as regiões (norte, sul, leste, oeste e central) da cidade de Ribeirão Preto, SP. A participação se deu de forma voluntária, por meio dos critérios de inclusão previamente estabelecidos: (1) ter idade entre 14 e 20 anos, (2) estar matriculado na academia de ginástica e (3) praticar alguma das seguintes modalidades de atividade: musculação, ginástica localizada e/ou ginástica do grupo dos body systems. A escolha destas modalidades baseou-se nos critérios estipulados por Slater e Tiggemann2, que definem exercícios com finalidades estéticas como aqueles com forte ênfase na aparência física, muscularidade e magreza.


MATERIAL E MÉTODO

Questionário de Hábitos Alimentares


Este questionário, desenvolvido por Feijó et al.4, avalia a alimentação habitual dos adolescentes e a opinião dos mesmos sobre o seu comportamento alimentar. O instrumento possui questões fechadas referentes à frequência da alimentação durante os dias escolares (de segunda a sexta-feira), em relação a café da manhã, colação, almoço, lanche da tarde, jantar e ceia. Além disso, o instrumento também avalia as variáveis almoço e jantar quanto ao padrão refeição ou lanche, sendo estes conceitos previamente definidos no início do questionário. Tais conceitos foram elaborados pelos autores, sendo considerados lanches: sanduíches, cheeseburgers, iogurtes, salgadinhos, doces e café; e refeição: carnes, arroz, feijão, massas, saladas e sopas.

Os alunos foram também observados quanto ao modo como avaliam a qualidade da sua alimentação (muito boa, boa, média, ruim ou muito ruim), sobre o principal motivo pelo qual eventualmente essa qualidade não é adequada (falta de tempo, falta de apetite, hábito/costume, falta de dinheiro, falta de interesse) e acerca a realização de dietas de emagrecimento.

Para o presente estudo incluíram-se, ao final do questionário, três questões relativas ao uso de suplementos e/ou anabolizantes e o tipo de orientação recebida para este uso e para a prática de dietas.

Questionário de Frequência Alimentar

Os hábitos alimentares foram obtidos por meio do Questionário de Frequência Alimentar (QFA), aplicado por pesquisadora devidamente treinada para a tarefa. Foi apresentada uma lista de alimentos e os participantes referiram a frequência de consumo, que estava dividida em: mais de uma vez ao dia, diariamente, semanalmente, mensalmente, raramente ou nunca.

O consumo médio de porções diárias foi comparado com o consumo de grupos alimentares sugeridos pela pirâmide alimentar proposta por Philippi et al.5, dividida, então, em quatro níveis: 1º: grupo dos cereais, tubérculos e raízes; 2º: grupo das hortaliças e das frutas; 3º: grupo do leite e produtos lácteos, das carnes e ovos e das leguminosas; e 4º: grupo dos óleos e gorduras e dos açúcares e doces.

Foi considerado consumo habitual uma frequência > 4 vezes por semana, por mais de 50% da amostra, seguindo os procedimentos descritos por Nascimento6.

Procedimento

Este projeto e todos os seus procedimentos foram aprovados por um comitê de ética credenciado junto ao Conselho Nacional de Saúde (Ref. 188/07), obedecendo à Resolução 196/96 do Ministério da Saúde, e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido foi devidamente obtido de todos os participantes.

A coleta de dados foi realizada em salas cedidas pelas próprias academias, em sessões individuais, à entrada ou saída dos locais. Cada sessão durou em média 20 minutos e consistiu na aplicação dos questionários pela pesquisadora.

Análise Estatística

A análise dos dados foi realizada por meio do software Statistica, versão 5.0. Utilizaram-se uma estatística descritiva (frequências e porcentagens) e, para as análises de comparação entre os sexos, os testes de qui-quadrado ou exato de Fisher (variáveis categóricas). Os níveis de significância estatística foram estabelecidos em p < 0,05.


RESULTADOS

Foram entrevistados 104 adolescentes, sendo 61 meninos e 43 meninas, com idade média igual a 18 anos (± 1,55). Os resultados obtidos pelo Questionário de Hábitos Alimentares estão descritos na Tabela 1. Considerando-se todos os adolescentes entrevistados, as refeições mais realizadas diariamente durante os cinco dias da semana foram café da manhã (72,1%), almoço (96,1%), lanche da tarde (75,0%) e jantar (79,8%), não havendo diferença estatisticamente significativa entre meninos e meninas. Ainda na Tabela 1 pode-se observar que, no jantar, os meninos tendem a consumir mais refeição (57,4%), enquanto as meninas demonstraram preferência por lanche, já que apenas 27,9% delas têm o hábito de consumir refeição (p < 0,01).




Quando questionada sobre a qualidade de sua alimentação, a maioria dos entrevistados julgou-a boa (41,3%) ou média (40,4%). Foi observado que o sexo masculino considerou sua alimentação significativamente melhor que o feminino (resposta muito boa) (p < 0,05), enquanto as meninas apresentaram mais respostas intermediárias (respostas boa e média). Para aqueles que julgaram sua alimentação inadequada, os principais motivos alegados para a pior qualidade da alimentação foram, para ambos os sexos, hábito e costume (38%). Na comparação entre meninos e meninas não foi encontrada diferença estatisticamente significativa para nenhuma das alternativas, exceto para já acho minha alimentação adequada, cuja pontuação foi estatisticamente superior para o sexo masculino (p < 0,05) (Tabela 1).

Considerando-se todos os jovens entrevistados, a análise de frequência dos grupos alimentares, consumidos acima de quatro vezes por semana por mais de 50% da amostra, demonstrou maior consumo de carnes (92,3%), leite e derivados (77,9%), cereais (75%), leguminosas (67,3%), frutas (62,5%) e açúcares e doces (51,9%). Na comparação entre os sexos, as diferenças observadas foram no consumo de ovos (p < 0,01) e carnes (p < 0,05), mais presentes na alimentação dos meninos (Tabela 2).




A Tabela 3 traz os resultados relativos à frequência de realização de dietas para perda ou manutenção do peso. Cerca de 60% dos adolescentes entrevistados afirmaram fazer ou já ter feito dieta, entretanto esta prática é mais prevalente entre as meninas (p < 0,001), cujo percentual chega a 81,4%. A prevalência de adolescentes que faz restrições alimentares por conta própria é alta (32,7%) e, na comparação entre meninos e meninas, observou-se que elas tendem a ser mais influenciadas pela mídia (p < 0,05).




Os resultados do questionamento sobre o hábito de utilizar suplemento e/ ou anabolizante estão apresentados na Tabela 4. Cerca de 31% dos entrevistados afirmaram ter feito ou ainda fazer uso destas substâncias, sendo esta prática é mais prevalente entre os meninos (p < 0,01). Enquanto 7% das meninas afirmaram utilizá- las frequentemente, entre os meninos este percentual foi de 18%. Quase metade dos entrevistados é orientada pelo educador físico (48,2%) e a frequência de uso por conta própria é maior entre os meninos (p < 0,05).




DISCUSSÃO

O presente estudo objetivou avaliar os hábitos alimentares de adolescentes que praticam regularmente exercícios físicos com finalidades estéticas e a opinião dos mesmos sobre o seu comportamento alimentar, além da frequência de comportamentos inadequados para controle de peso. Observou-se a realização de quatro refeições diárias e uma adequação no consumo dos principais grupos de alimentos por grande parte dos entrevistados, que, em sua maioria, considera sua alimentação boa ou média. Entretanto, uma grande parcela dos adolescentes realiza dietas para emagrecimento e utiliza suplementos e/ou anabolizantes sem adequada orientação.

O Questionário de Hábitos Alimentares demonstrou que as refeições menos realizadas foram a colação e a ceia, e que quase 30% dos adolescentes omitem o café da manhã diariamente. Esses dados são superiores aos encontrados por outros pesquisadores7, onde a omissão desta refeição foi na ordem de 20%. Segundo Fonseca et al.8, o hábito de omitir refeições, especialmente o desjejum, juntamente com o consumo de refeições rápidas, faz parte do estilo de vida dos adolescentes, e esta afirmação corrobora nossos e outros resultados9 quanto ao padrão da alimentação, especialmente no jantar, em que mais da metade dos entrevistados tem o hábito de consumir lanche.

A maioria dos adolescentes entrevistados considera sua alimentação boa ou média, dados que também corroboram outros estudos4,10 e, para aqueles que julgaram sua alimentação como inadequada, os principais motivos referidos para não se alimentar melhor foram hábito/ costume, seguido pela falta de tempo. Estes dados se assemelham ao estudo de Feijó et al.4 e vêm ao encontro das afirmações de Gambardella et al.7 e Garcia11 de que a alimentação contemporânea se caracteriza por preferências individuais, pela escassez de tempo para o preparo e consumo de alimentos, pelos deslocamentos das refeições de casa para estabelecimentos que comercializam alimentos, modismo e pelo arsenal publicitário associado à alimentação.

Entretanto, na análise da ingestão alimentar, observou-se que os participantes relataram, através do QFA, um consumo adequado dos principais grupos alimentares. Esses resultados contrariaram nossas expectativas, já que estudos recentes têm demonstrado que a alimentação habitual do adolescente brasileiro caracteriza-se por uma inadequação alimentar com carência de ingestão de produtos lácteos, frutas, hortaliças, alimentos fontes de proteína e excesso de açúcar e gordura7,12.

Serra & Santos13 citam em seu estudo que "o adolescente diz que não adianta ser radical com a alimentação e que deve comer de forma correta, mas também assume práticas alimentares radicais e incorretas do ponto de vista nutricional, pois precisa, a qualquer custo, conquistar o padrão ideal." Se considerarmos que os participantes deste estudo frequentam regularmente uma academia de ginástica e praticam atividades físicas exclusivamente com finalidades estéticas, podemos supor que estes indivíduos tenham uma maior preocupação com a própria imagem. Isso ilustra o impasse em que os adolescentes se encontram diante da escolha de um padrão alimentar, já que, apesar de relatarem uma alimentação adequada, também foi possível observar uma alta frequência de comportamentos inadequados para controle de peso.

No presente estudo encontrou-se uma alta prevalência de adolescentes, especialmente do sexo feminino, que realiza dietas para perder ou manter o peso corporal e estes dados confirmam os resultados de outros trabalhos4,8. A maioria das dietas realizadas por indivíduos, independente da idade, é restritiva, principalmente em energia, e as restrições alimentares severas podem expor seus praticantes ao risco de doenças, já que são deficientes em muitos nutrientes importantes.

Uma das principais razões para a prática de dietas, especialmente no sexo feminino, está na ênfase da sociedade contemporânea no ideal de magreza, nas intensas propagandas na mídia de uma infinidade de regimes e de produtos dietéticos, bem como no crescimento do número de academias e de revistas sobre o tema. Juntas, estas influências fornecem um ambiente sociocultural que justifica a perda de peso, trazendo consigo uma simbologia de que a beleza física pode proporcionar autocontrole, poder e "modernidade" 14.

O uso de suplementos e/ou anabolizantes foi relatado por quase um terço dos entrevistados, sendo esta prática mais comum entre os meninos. A utilização destas substâncias por frequentadores de academias foi avaliada por outros autores15,16 que também concluíram que o maior uso é feito pelo sexo masculino e por indivíduos mais jovens.

A grande maioria destes estudos relata que os consumidores mais jovens fazem uso destas substâncias motivados pelo aumento de massa muscular. A hipertrofia acaba sendo um estímulo ao seu uso, pois, através da mídia, a sociedade estabelece um padrão estético que valoriza o corpo musculoso, que leva à aceitação pelo grupo, à admiração de todos e a novas oportunidades, não importando os meios e métodos necessários para sua aquisição16.

Ressalta-se que, apesar do nutricionista ser o profissional melhor capacitado para a prescrição de dietas e suplementos alimentares, é grande o número de adolescentes que os fazem sem a correta orientação. Os dados da atual pesquisa se assemelham aos de outros estudos17,18 e o que se pode perceber é que, em academias, estas práticas são decorrentes, basicamente, da indicação feita por pessoas não habilitadas, por influência dos meios de comunicação ou por iniciativa do próprio usuário.

A prevalência de indivíduos que realizam e utilizam recursos ergogênicos sem orientação adequada pode ser considerada alta, visto os prejuízos à saúde envolvidos nestas práticas. Nessa idade, o desejo por resultados rápidos é grande, tornando os adolescentes mais suscetíveis às influências externas, especialmente amigos, treinadores e professores, quase sempre sem respaldo técnico para tal conduta19.

As principais limitações da pesquisa referem-se ao tamanho relativamente pequeno da amostra e a não utilização de um método direto de avaliação do consumo alimentar destes adolescentes. Os resultados baseiam-se em instrumentos subjetivos de medida, e, dessa forma, devem ser interpretados com cautela. Apesar dessas ressalvas, pode-se concluir que, de maneira geral, os adolescentes entrevistados possuem hábitos alimentares saudáveis, realizando, em média, quatro refeições diárias e consumindo diariamente os principais grupos alimentares. Apesar disso, a prática indiscriminada de dietas e uso de suplementos e/ou anabolizantes é frequente, e em sua grande maioria, realizada sem orientação ou com uma orientação inadequada. A falta de orientação adequada pode trazer prejuízos à saúde desses indivíduos, que, por se encontrarem em uma fase de construção da identidade, devem ser alvos de intervenções na área da saúde e da nutrição para a adoção de hábitos de vida saudáveis e a promoção da saúde na vida adulta. Os autores sugerem a realização de novos estudos, avaliando-se aspectos quantitativos da dieta, a fim de complementar a presente pesquisa e chamam a atenção para a necessidade de se direcionar ações individuais e coletivas de assistência a esta população específica, que, devido ao padrão estético vigente, frequentemente apresenta comportamentos inadequados para controle de peso.


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1. Graduanda do curso de Nutrição da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP). Ribeirão Preto, SP, Brasil.
2. Pós-doutora; coordenadora do Curso de Nutrição da Universidade de Ribeirão Preto (UNAERP). Ribeirão Preto, SP, Brasil.
3. Mestre em Psicologia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo. Ribeirão Preto, SP, Brasil.

Maria Fernanda Laus
Laboratório de Nutrição e Comportamento, Departamento de Psicologia
Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto, SP
Av. Bandeirantes, 3.900
SP, Brasil. CEP: 14040-901
fernandalaus@pg.ffclrp.usp.br

Recebido em 8/5/2012
Aprovado em 24/6/2012
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