Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 8 nº 2 - Abr/Jun - 2011

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Páginas 11 a 17


Adolescência, cultura Emo e saúde: o olhar de adolescentes em Fortaleza-CE

Adolescence, Emo culture and health: perceptions of adolescents in Fortaleza, Northeast Brazil


Autores: Pedro Mesquita de Sousa1; Adriana Ferreira2; Alissan Martins2; Fabiane Gubert2; Ligia Scopacasa3; Jaislâny Mesquita3; Francisco Sampaio Filho1; Paulo Henrique de Paula4; Neiva Vieira5; Patricia Pinheiro6

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Como citar este Artigo

Descritores: Adolescente, cultura, comportamento do adolescente, promoção da saúde.
Keywords: Adolescence, culture, teen behavior, health promotion.

Resumo:
Uma das tribos urbanas que emergiram no século XXI é o grupo dos Emos. Os sujeitos dessa tribo apresentam gosto específico por músicas emotivas, além de um modo de se vestir bastante peculiar que dá visibilidade à identidade do grupo. Objetivo: Compreender os sentimentos, significados e atitudes do "ser emo" na percepção de adolescentes que vivenciam este grupo em Fortaleza-CE. Métodos: Estudo qualitativo, descritivo e exploratório. Por intermédio de entrevista semiestruturada, participaram 15 adolescentes que se autodenominaram Emos, com idade entre 13 e 18 anos. A entrevista ocorreu em uma praça pública de Fortaleza - CE, escolhida por se constituir como um local de grande concentração do grupo Emo. Resultados: Revelaram que existiram mudanças no momento em que os jovens aderiram ao estilo emocore. Os participantes referem que sofrem discriminação da sociedade devido à intolerância ao seu estilo e seu vestuário considerado exótico. Também se verificou que o homossexualismo não é um fato verossímil no grupo. Alguns fatores continuam sendo responsáveis por manterem a vulnerabilidade na adolescência, como a precocidade das vivências sexuais, o uso de bebidas alcoólicas, e o "ficar"; entretanto, eles manifestam vontade e necessidade de adotar práticas preventivas. Conclusão: Importância de desenvolvimento de atividades de educação em saúde pelos profissionais de saúde, por meio da escola, espaços sociais e/ou instituições de saúde, de modo que os jovens consigam vivenciar esta dimensão humana com qualidade e segurança.

Abstract:
Among the urban tribes that emerged in the twenty-first century are the 'Emos': a group preferring emotive music with an unusual style that underscores their identity. Objective: To understand the feelings, meanings and attitudes of 'being Emo' as perceived by a group of teenagers in Fortaleza, Northeast Brazil. Methods: Qualitative, descriptive and exploratory study conducted through semi-structured interviews with fifteen self-denominated 'Emos' between 13 and 18 years old. These interviews were conducted in a public square in Fortaleza where 'Emo' youngsters congregate. Results: The findings disclosed changes when young people adopted the 'Emocore' style, with respondents reporting discrimination by society due to intolerance of this style and dress, viewed as 'weird'. It also became apparent that homosexuality is not likely in this group. Some factors still underpin vulnerability in adolescence, including early sexual experiences, 'hooking up' and drinking alcoholic beverages. However, they expressed their willingness and need to adopt preventive practices. Conclusion: This highlights the importance of the development of health education activities by healthcare practitioners through schools, social areas and/or healthcare institutions, so that young people can experience this human dimension safely and with quality.

INTRODUÇÃO

O modo de ver o mundo, os diferentes comportamentos sociais e até mesmo as posturas corporais são produtos de uma determinada cultura. Ao ser envolvido por hábitos e costumes, o indivíduo passa a adotar o modo de vida do seu círculo social, estabelecendo-se crenças e valores de determinados grupos coletivos1.

Na adolescência a necessidade de participar de um grupo social é marcante, devido a esta ser uma fase evidenciada por turbulência emocional, conflitos com a família e comportamentos rejeitados pelos adultos, sendo assim o grupo de amigos essencial para a vivência do processo de adolescer1. As mais diversas alterações comportamentais atuam de forma marcante, sendo o adolescente comumente chamado de "aborrecente". Este é um período de grandes mudanças, no qual surgem fatores e questões que repercutem sobre o jovem, sua família e comunidade.

Alguns grupos sociais, com costumes diferenciados, tendem a ser excluídos ou rejeitados pela sociedade. Um exemplo desta realidade é a tribo urbana que emergiu no século XXI, e que constitui os sujeitos deste estudo: os Emos. Os sujeitos dessa tribo apresentam gosto específico por músicas emotivas, além de possuírem comportamento melancólico e de extrema sensibilidade. Possuem um modo de se vestir bastante peculiar: roupas pretas/coloridas, saias quadriculadas, unhas pintadas de preto, pulseiras coloridas, camisas de bandas ou de desenho japonês, piercings, maquiagem preta no rosto2.

Os Emos são adolescentes com facilidade de se emocionar, e por este motivo são considerados homossexuais (provavelmente pela sua alta sensibilidade), depressivos, suicidas, e vistos como jovens insensatos, sendo marginalizados pela sociedade provavelmente por conta de seu comportamento e maneira de se vestir3.

A relevância da pesquisa junto a este grupo está relacionada à participação de jovens em uma cultura amplamente difundida (que possui em sua maioria adeptos adolescentes), porém pouco analisada sobre os mais diversos aspectos, inclusive sobre como eles se percebem enquanto integrantes desta tribo. Em vista do exposto, o presente estudo tem o objetivo de compreender os sentimentos, significados e atitudes do "ser Emo" na percepção de adolescentes participantes deste grupo em Fortaleza-CE.


MÉTODOS

Estudo do tipo qualitativo, descritivo e exploratório. Esta é uma modalidade de investigação que privilegia a identificação e a análise das significações subjetivas de indivíduos e/ou grupos acerca de determinado fenômeno4.

A pesquisa foi realizada na Praça Portugal, localizada no meio do cruzamento das Avenidas Dom Luís e Desembargador Moreira, no Bairro Aldeota, no município de Fortaleza-CE. Está situada ao lado de dois shopping centers, constituindo assim um local de intenso movimento e concentração de jovens. Os adolescentes frequentam a praça aos sábados, local que se tornou referência para os encontros e reuniões deste grupo.

Assim, participaram do estudo 15 adolescentes com idades entre 13 e 18 anos. Como critérios de inclusão foi estabelecido que os participantes se intitulassem Emo e concordassem em participar por meio da assinatura do termo de consentimento e mediante a autorização dos pais/responsáveis. Com o intuito de garantir o anonimato dos participantes, estes foram identificados com o nome de cantores e artistas internacionais (Bono Vox, Christina Aguilera, Elvis Presley e Avril Lavigne, etc.).

A coleta de informações foi realizada nos períodos de janeiro e fevereiro de 2010, por meio da entrevista semiestruturada. Durante a entrevista, os pesquisadores aproximaram as ideias sobre o comportamento ou respostas obtidas no momento da interação com o adolescente. Estruturaram-se questões demonstrando interesse, de modo que diversas informações específicas e gerais foram compartilhadas, tendo sido essencial a empatia para ter penetrado no mundo, cultura ou situação do adolescente.

O processo de análise incluiu os depoimentos nas entrevistas, além da observação das posturas, gestos, sentimentos, compreensão de valores que norteiam as ações dos sujeitos, o que contribuiu para obter uma visão total do fenômeno. As informações foram analisadas por meio de três etapas: a pré-análise, a exploração do material e o tratamento dos resultados5. Acrescentamos que o estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Ceará sob parecer 284/09.


RESULTADOS E DISCUSSÃO

VIDA E CULTURA: O SER EMO


Os participantes do estudo foram 15 adolescentes, na faixa etária de 13 a 18 anos, sendo cinco do sexo feminino e dez do sexo masculino. Quanto à escolaridade, dois estavam no ensino fundamental, enquanto 13 cursavam o ensino médio.

Em relação ao motivo que os levaram a adotar o estilo emocore, alguns participantes destacaram algumas peculiaridades, mudanças nas atitudes, no modo de vestir e agir:

    Depois que passei a ser Emo, saio muito mais, as amizades mudaram. Uns se afastaram, outros vieram. Mudou além do meu jeito de vestir, o jeito de agir também. Tento ser a mesma, mas a galera diz que eu mudei (Madonna).


    A gente não vira Emo, ou qualquer outra coisa de uma hora pra outra, você descobre...de acordo com sua personalidade, você vai se identificando com as características, a cultura...muda o cabelo, roupas, o estilo de se vestir (Michael Jackson).


É evidente a mudança de comportamento associada com a forte influência que a cultura exerce na fase da adolescência. Na fala de Michael Jackson, percebe-se que ele associa a formação da identidade do adolescente ao contexto cultural em que ele se insere. A cultura é um conjunto de práticas que fazem parte da vida das pessoas e que influenciam a forma como elas se comportam no dia-a-dia6. Ou seja, a cultura é um dos fatores que exercem bastante influencia na personalidade do homem e que, dessa forma, são importantes na tomada de decisões, no modo de agir e no comportamento individual de cada ser.

Os jovens possuem acesso a diversas referências culturais, as quais estabelecem um conjunto heterogêneo de significados que se articulam e dão significado à sua vida cotidiana, portanto ao seu comportamento e modo de se expressar7. Dessa forma, o modo como o adolescente se constrói e é construído socialmente, e como se representa, é fruto do seu processo de socialização. Assim, entende-se que o desenvolvimento do adolescente admite várias significações construídas social e historicamente.

Em relação às amizades, alguns entrevistados também afirmaram que existiram mudanças, tanto positivas quanto negativas:

    [...] Alguns amigos se afastaram de mim [...] (Christina Aguilera)


    [...] Nenhum amigo se afastou de mim, depois que passei a me vestir assim...pelo contrário, fiz mais amizades [...] (Axel Rose)


Pelas falas também fica evidente que na adolescência ocorrem diversas transformações ligadas ao desenvolvimento da identidade do jovem. Em concordância a outras tribos contemporâneas, os Emos também são caracterizados pela intensa importância que conferem à aparência física de seus integrantes.

Os Emos fazem uso da dimensão simbólica como a principal e mais visível forma de comunicação seja entre os próprios integrantes do grupo ou com a sociedade em geral, sendo o uso dessa dimensão um fator de integração e até de exclusão grupal. O gosto musical e o uso de roupas e acessórios servem para enviar e receber mensagens, fazendo com que os indivíduos que possuem um gosto em comum se reconheçam pela cidade e criem laços de amizade8.

É por se apresentarem e se comportarem dessa maneira perante o mundo, com roupas peculiares e o uso de adereços e objetos característicos, que os Emos constituem e formam sua imagem perante o mundo. Portanto, o grupo é simbolizado e identificado, por outras pessoas, pelas peças que usa, e o estilo passa a ser uma manifestação da identidade da tribo, como se observa nas falas a seguir:

    [...] A galera sabe que eu sou Emo pelo aspecto de eu me vestir...eles rotulam muito pela aparência [...] (Axel Rose)


    [...] Eu uso calças quadriculadas, roupas pretas e coloridas, alargadores, piercings e tal [...] (James Brown)


Dessa forma, a identidade do indivíduo ou aquela que ele quer assumir dependerá das roupas que ele utiliza, fazendo com que quem usa essas vestimentas assuma, por parte da sociedade, características que muitas vezes não são próprias de sua personalidade (como por exemplo, a rebeldia).

Em relação à personalidade do adolescente Emo ele é conhecido pela sua intensa emotividade. Ele expressa seus sentimentos de forma exacerbada:

    [...] Emo não é só tristeza...é assim: quando tá triste, ele fica muito triste, mas quando tá feliz, fica eufórico [...] (Christina Aguilera)


Os Emos possuem diversas características: são melodramáticos, depressivos, possuem grande empatia (se colocam no lugar de outras pessoas, tentando entender seus sentimentos), bastante emotivos (colocam sempre suas emoções em tudo que procuram fazer); também não discriminam a opção sexual e abominam qualquer tipo de preconceito, criticando as pessoas que agem com atitudes violentas.

    [...] A galera fica dizendo: "olha a emo", "vai começar a chorar", "vai cortar os pulsos, vai" [...] (Christina Aguilera).


Esse grupo é marcado na sociedade por apresentar essa característica singular de expressar as emoções de forma intensa e melodramática, de alta sensibilidade, capaz de chorar ouvindo músicas sentimentais. Muitas dessas características estão conectadas ao estilo musical que esses adolescentes gostam e que seguem. Bandas Emos são vertentes de bandas hardcore e punk rock que possuem em suas composições letras mais emotivas9.

É interessante observar que um dos participantes da pesquisa declarou ser alvo de outras atitudes preconceituosas. Em um dos lugares que normalmente frequenta, tentaram barrá-lo, segundo ele, devido à intolerância ao seu estilo e comportamento, como também pelo seu vestuário. Além disso, afirma ser evidente a reação diferenciada das pessoas quando ele sai de casa:

    [...] Uma vez o segurança do shopping tentou me barrar por causa das minhas roupas...as pessoas me olham diferente na rua [...] (Mick Jagger)


A sociedade geralmente reage de maneira negativa àquele indivíduo que age de maneira diferente da comunidade. Determinados comportamentos considerados "fora dos padrões" são geralmente respondidos com atos de repugnância por outras pessoas10. Como o Emo se apresenta de uma forma bastante diferente do que é considerado um adolescente normal, ele acaba sofrendo preconceito.

Pela fala anterior de Mick Jagger, fica claro que os Emos são alvos de crescentes críticas que colocam em destaque seu jeito de se vestir e suas atitudes. Em sua maioria, essas críticas são de forma preconceituosa e pejorativa, como se observou acima. Mick Jagger afirmou ainda ser vítima de preconceito até na escola:

    [...] Na escola o preconceito é o mesmo...até os professores tiram sarro [...] (Mick Jagger)


    [...] Na escola a galera zoava comigo [...] (Elton John)


Até no ambiente escolar a perseguição contra os Emos continua. A escola faz parte de um contexto social múltiplo que envolve diferentes realidades. Essa diversidade social é existente entre pessoas que convivem em qualquer lugar, como também na escola. Em um mesmo ambiente convivem adolescentes com gostos e estilos bem diferentes.

Como dito anteriormente, as diferenças existentes entre as pessoas causam um "desconforto" que impede que se reconheçam no outro as qualidades inerentes àquelas diferenças. Esse comportamento de repulsa às diferenças é denominado preconceito, uma opinião formada sem reflexão e/ou um conceito antecipado que se forma sobre determinada pessoa ou objeto, que se manifesta de acordo com adventos da sociedade, da história e da cultura em que está inserido11.

Nesse sentido, a escola é também uma das responsáveis pela socialização de valores pertinentes e o respeito às diferenças dentro da sociedade. A formação de valores na escola proporciona aos alunos, professores e todas as pessoas que convivem nesse ambiente o respeito mútuo às diferenças e à tolerância com os colegas e demais pessoas de seu convívio.

É inadmissível que educadores, participantes ativos do processo de educação de valores e condutas do ser humano, ajam de maneira discriminatória com qualquer indivíduo, pois eles são um dos exemplos a serem seguidos. Portanto, a comunidade escolar deve ser capaz de mudar mentalidades, combater atitudes discriminatórias e superar o preconceito, sendo necessário compreender que atitudes, normas e valores comportam uma dimensão social e pessoal distintas, ou seja, cada ser é diferente, pensa, tem atitudes e comportamentos diferentes.

Dessa forma, o diálogo entre família e escola é fundamental para que educação tenha por finalidade a formação do indivíduo em termos de instrução, de atitudes e de cidadania e para tratar todos de maneira igualitária, respeitando suas diferenças, superando o preconceito e a discriminação existente na sociedade.

Apesar da "perseguição" (referida pelos Emos) também ocorrer na escola, é no ambiente domiciliar que se iniciam os preconceitos, brigas e discussões por conta da adesão ao estilo emocore. Tal fato pode ser exemplificado pelas falas a seguir:

    [...] Todo mundo achava estranho quando passei a me vestir assim, principalmente a família, que achavam que tinha alguma coisa a ver com usar drogas [...] (Britney Spears)


A fala de Britney Spears reforça a teoria de que na sociedade contemporânea a identidade do indivíduo é confundida com a roupa que ele veste, pois esta tem o poder de transmitir símbolos e mensagens, fazendo com que ele assuma uma identidade de um determinado grupo social em detrimento de seu estilo e de suas atitudes. E isso pode trazer repercussões negativas ao passo que uma pessoa pode ser "agredida", seja física, verbal ou moralmente, pelo que ela aparenta ser, e não pelo que ela é de verdade. No exemplo dado por Britney, verifica-se que, por conta do visual muitas vezes exagerado e de seu comportamento às vezes ousado, os Emos representam uma imagem que muitas vezes não condiz com a realidade dos membros desse grupo, como serem usuários de drogas, por exemplo.

A literatura que trata do período do adolescer expõe de forma consensual as grandes alterações de hábitos que ocorrem na vida do jovem, ou seja, o jovem tem essa atração por experimentar o novo12. Nesse desafio ao desconhecido, muitas vezes o adolescente acaba adotando comportamentos de risco como o uso de drogas, bebidas alcoólicas, relações sexuais sem preservativo, entre outros, principalmente quando não existe um diálogo aberto em casa.

Os pais nem sempre estão preparados para lidar com as mudanças do filho adolescente, pois sentem dificuldades em direcionar e definir os limites de sua autoridade, ficando sem saber como agir. Eles se encontram confusos quanto às práticas educativas, não sabendo mais o certo ou o errado, e se devem ou não impor disciplina aos filhos. Isso contribui para que seus filhos questionem certos valores familiares e se achem abertos a novas aventuras e experiências.

Um dos sujeitos da pesquisa afirmou ainda que a adesão ao estilo emocore foi um dos fatores contribuintes para um maior número de desentendimentos em casa:

    [...] Depois que passei a ser Emo aumentaram as discussões com a família [...] (Christina Aguilera)


As transformações que os jovens passam devem ser observadas, orientadas e acompanhadas pelos responsáveis. Muitos pais não dão importância, e até deterioram, demonstrando sinal de repúdio às constantes mudanças que ocorrem com seus filhos, contribuindo para a existência de conflitos no núcleo familiar.

    [...] Meu pai não fala comigo, acho que ele não gosta muito dos piercings [...] (Elton John)


Os responsáveis pelo jovem se sentem inseguros e hesitam em impor seus padrões ao mesmo tempo em que o adolescente quer ser respeitado na sua individualidade. Portanto, conclui-se que pais, responsáveis e educadores de forma geral não devem impor sua autoridade e outras formas de dominação quando estas não forem justificáveis, pois é nesse momento que os adolescentes estão formando sua identidade e desafiando os "padrões adultos", assumindo comportamentos e modos de agir diferentes dos pais. Por conta disso, a adolescência é taxada como uma época de rebeldia.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os resultados do estudo permitiram a compreensão do que é ser Emo na concepção dos adolescentes que vivenciam esta realidade, o que contribui diretamente para o trabalho do profissional de saúde junto a esta população. Diversas características peculiares como afetividade, emotividade, exacerbação de sentimentos, vestuário, gostos musicais, entre outros, caracterizam e os identificam, dando visibilidade à identidade grupal.

Shopping centers e praças públicas tornaram-se territórios característicos de encontro desses jovens. Muitos entrevistados relataram as mudanças nas atitudes, no modo de se vestir e no de agir, nas amizades entre outras, no momento em que aderiram ao estilo emocore, evidenciando, dessa forma, a forte influência que a cultura exerce na fase da adolescência. Além disso, é perceptível o preconceito existente na sociedade, seja em casa, na escola ou na rua, em relação aos Emos, em virtude da intolerância ao seu estilo e seu vestuário considerado exótico.

A sexualidade desses adolescentes foi outro ponto de intensas discussões. De forma geral, são rotulados como homossexuais pela sociedade. Porém, os entrevistados ressaltaram que apesar de o número de homossexuais ser bastante elevado entre os adeptos da tribo, existem tanto heterossexuais como bissexuais, e que o homossexualismo não é um fato verossímil no grupo.

A ausência de estudos prévios que retratassem os aspectos ligados à sexualidade dos Emos surgiu como uma das principais limitações para este estudo. Outra dificuldade é por conta da quase inexistência, na literatura científica atual, da abordagem da cultura Emo. Dessa maneira, a análise das informações relativas à explanação das características desse grupo contemporâneo juvenil é também feita por leituras de artigos não científicos e sites da internet (a cultura da internet caracteriza muito esse grupo).

Esse estudo trouxe contribuições para o conhecimento do campo da saúde, ao passo que os conhecimentos aqui produzidos podem ser aplicados não só em estudos posteriores de grupos juvenis da atualidade, como também na formulação de novas políticas públicas de saúde voltadas para a área da adolescência, e até mesmo na reformulação das já existentes, incluindo, principalmente, em possibilidades de atuação no campo da saúde junto a este grupo.

Assim, observa-se a importância de desenvolvimento de atividades de educação em saúde pelos profissionais de saúde, por meio da escola, espaços sociais e/ou instituições de saúde, de modo que os jovens consigam vivenciar esta dimensão humana com qualidade e segurança.


REFERÊNCIAS

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12. Henderson M, Butcher I, Wight D, Williamson L, Raab G. What explains between-school differences in rates of sexual experience? BMC Public Health, 2008.










1. Enfermeiro graduado pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
2. Enfermeira, Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC.
3. Discente do Curso de Enfermagem da UFC, Bolsista de Iniciação Científica.
4. Enfermeiro, Bolsista da Escola de Saúde Pública do Ceará.
5. Enfermeira, PhD em Educação em Saúde, Docente do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da UFC, Pesquisadora do CNPQ.
6. Enfermeira, Doutora em Enfermagem, Docente do Curso de Enfermagem da UFC.

Fabiane do Amaral Gubert
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Recebido em 3/01/2011
Aprovado em 2/04/2011
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