Revista Adolescência e Saúde

Revista Oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente / UERJ

NESA Publicação oficial
ISSN: 2177-5281 (Online)

Vol. 8 nº 1 - Jan/Mar - 2011

Relato de Caso Imprimir 

Páginas 59 a 62


Problemas relacionados com o uso de piercing na língua - relato de caso

Problems related to tongue piercing: case report


Autores: Luísa de Vasconcelos Alves1; Adriana Menucci Bachur da Silva1; Ana Christina Lamosa da Fonseca2; Mauro Sayão de Miranda3

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Scielo

Medline

Como citar este Artigo

Descritores: Piercing corporal, doenças da língua, serviços de saúde para adolescentes.
Keywords: Body piercing, tongue diseases, adolescent healthcare.

Resumo:
Objetivo: O uso de piercings pelos jovens vem sendo adotado como uma nova abordagem de estilo e inclusão social. Muitas são as áreas de aplicação na boca: língua, lábios, bochechas, dentes e úvula. Inúmeros problemas têm sido relatados associados ao uso de piercing na língua, como: cálculo, halitose, recessão gengival, trauma na mucosa, hipersalivação, hemorragia e até tromboflebite do seio sigmoide e endocardite estreptocócica. Este relato de caso clínico mostra uma técnica restauradora, minimamente invasiva, de dentes traumatizados e a importância do profissional quanto à orientação das consequências do uso indiscriminado dos piercings. Descrição do caso: Paciente do sexo feminino, 15 anos de idade, chegou à clínica da Disciplina de Saúde Oral do Adolescente, da UERJ, relatando ter "quebrado" o dente. Ao exame, observou uma fratura no elemento dentário 24 e uso de piercing lingual, o provável causador. O tratamento consistiu no esclarecimento quanto aos riscos do uso de piercings e confecção de uma restauração conservadora indireta de cerâmica. Após o tratamento e orientação, a paciente resolveu remover o piercing. A paciente vem sendo acompanhada e a restauração continua em perfeitas condições. Comentários: O clínico deve estar preparado tecnicamente para proceder a restauração dentária e atender o paciente atuando no físico e no psicossocial.

Abstract:
Objective: Body piercing is viewed by young people as a new approach to style and social inclusion, applied in many different parts of the mouth: tongue, lips, cheeks, teeth and uvula. Countless problems associated with tongue piercing have been reported, such as calculus, halitosis, gingival recession, mucosal trauma, excessive salivation, bleeding, thrombophlebitis of the sigmoid sinus and streptococcal endocarditis. This case report presents a minimally invasive restoration technique for damaged teeth, while stressing the importance of healthcare practitioners explaining the problems caused by indiscriminate body piercing. Case description: A female patient, 15 years old, went to the Adolescent Oral Health Department Clinic at the Rio de Janeiro State University (UERJ), complaining that she had 'broken' her tooth. An examination showed a fracture in Tooth 24, probably caused by the tongue piercing. The treatment consisted of advice on piercing risks and the fabrication of an indirect conservatory ceramic repair. After guidance and treatment, the patient decided to remove the piercing. She has been monitored since then and the repair is still in good condition. Comments: It is thus vital that the clinician is technically well prepared to repair teeth and also able to assist patients in physical and psychosocial terms.

INTRODUÇÃO

O uso de piercings no rosto, especialmente na região da boca, está registrado na História como parte de hábitos religiosos, tribais, culturais e símbolo sexual. O primeiro registro foi encontrado na figura de um cão no Egito Antigo, aproximadamente, 1500 a.C. Para os maias representava espiritualidade, virilidade e coragem. Esquimós, hindus, chineses e índios americanos também o utilizavam como manifestações culturais. No sul da Índia, o voto de silêncio era acompanhado de colocação de piercing na língua. Há algumas décadas essa prática ressurgiu junto à moda do movimento punk e vem sendo utilizada principalmente por jovens, independentemente da classe social, preocupados como uma abordagem de estilo "arte no corpo". É representado como um sinal de individualidade, marginalidade, adorno ou aceitação dentro de um grupo ou tribo. As joias são confeccionadas de materiais hipoalergênicos e não tóxicos, como: ouro de 14 e 18K, titânio, aço inoxidável, acrílico, pedras, madeira e osso1,2,3.

Durante os últimos 30 anos, o número de etiologias relacionadas com o traumatismo dental tem aumentado significativamente na literatura e inclui um amplo espectro de variáveis, como fatores orais, ambientais e de comportamento humano.

São inúmeras as áreas de aplicação dos piercings, incluindo língua, lábios, bochechas, dente e até mesmo úvula. As complicações imediatas podem ser edema, hemorragia e infecção. Outras reações são trauma no tecido gengival e na mucosa, alterações gustativas, hipersalivação, acúmulo de cálculo, halitose, fraturas dentais, e interferência na fala, na mastigação e na deglutição. Foram relatados também na literatura casos como: endocardite estreptocócica e tromboflebite do seio sigmóide, ambas após aplicação de piercing na língua. Além disso, outro grande risco é a contaminação por uso de instrumentais infectados pelo vírus da hepatite, de HIV e de outras doenças sexualmente transmissíveis1,2,3,4.

O objetivo deste trabalho é relatar o caso clínico de uma paciente com parte de um dente fraturado devido ao adorno na língua e comparar com dados estatísticos.


APRESENTAÇÃO DO CASO

A menor C.V.O., do gênero feminino, com 15 anos de idade, procurou a clínica da Disciplina de Saúde Oral do Adolescente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro queixando-se de que "quebrou o dente quando comia". Ao exame clínico percebeu-se uma fratura da cúspide palatina (parte coronária mais próxima ao palato) do segundo pré-molar superior esquerdo, elemento 24 (Figura 1). A paciente relatava sensibilidade dentária no local, uma vez que havia exposição da dentina. Ao exame clínico percebeu- se que a mesma apresentava um piercing na língua, em metal, com a forma de esfera, provável causador do trauma dentário (Figura 2). Algumas características da paciente são importantes ressaltar: fisicamente parecia ser mais jovem, baixa estatura, utilizava roupas que expunham o corpo e era extrovertida. Primeiramente, foram abordadas durante uma conversa as desvantagens daquele adorno, como acúmulo de placa bacteriana, lesão dos tecidos gengivais adjacentes, possibilidade de infecção e fratura de outro dente, na tentativa de estimular a remoção da joia. O tratamento dentário proposto foi reabilitador não invasivo, preservando a estrutura remanescente, utilizando um reparo de cerâmica à base de dissilicato de lítio (E-max Press) cimentado com Variolink II, cimentação Dual, utilizando o sistema adesivo Adper Scotchbond Multi-uso (3M ESPE, Seefeld, Germany) técnica de 3 passos (Figura 3). Optou-se por este trabalho porque a extensão da lesão não foi tão profunda que necessitasse de um tratamento endodôntico (tratamento de canal) e consequentemente uma coroa total, restauração que recobre todo o dente. A opção terapêutica foi baseada na idade e na possibilidade financeira da paciente. Na consulta seguinte, uma semana depois, a jovem percebeu que as desvantagens pesavam mais que o simples status que aquele objeto causava e apareceu na clínica sem o piercing (Figura 4). A paciente vem sendo acompanhada e a restauração encontra-se em perfeitas condições estéticas e funcionais após 6 meses (Figura 5 A e B).


FIGURA 1. Elemento 24 com fratura da cúspide palatina


FIGURA 2. Piercing na língua da paciente


FIGURA 3. Restauração cerâmica cimentada


FIGURA 4. Paciente após orientação e já sem a joia


FIGURA 5A e B. Controle da restauração 6 meses após cimentação



DISCUSSÃO

Uma pesquisa realizada na cidade de São José dos Campos (SP) acompanhou 927 estudantes entre 14 e 18 anos através de exames clínicos e um questionário com os seguintes itens: idade, local do piercing, complicações e/ou alterações orais e frequência da higiene. Trinta e três estudantes apresentavam piercing oral (3,6%); 69,7% de escolas estaduais e 30,3% de particulares; a língua foi o local mais frequente (66,6%). Houve uma suave predominância masculina (54,55%). Além disso, foi observado alteração/complicação em 74.3% dos casos. Portanto, mesmo tendo-se observado baixa incidência do uso, as complicações foram proporcionalmente significantes2. O caso da jovem visto na clínica da FO-UERJ, embora isolado, confirmou alguns dados relevantes desse estudo: a língua como o local mais adornado e a complicação subsequente representada pela fratura dental.

Uma revisão de literatura buscou a prevalência das complicações de piercing na cavidade oral. Foi utilizada a fonte Medline através do PubMed Bibliographic Index de janeiro de 1992 a agosto de 2007. Em 11 artigos analisados, 3 apresentavam a prevalência (que variou de 3,4% a 20,3%). Nos outros, encontrou-se que as complicações pós-operatórias imediatas foram: inchaço e/ou infecção (24% - 98%), dor ou sensibilidade (14% - 71%), e sangramento ou hematoma; as complicações relacionadas com a joia foram, principalmente, em fratura ou desgaste dental (14% - 41%) e recessão gengival (19% - 68%). Especula-se que a fratura e desgaste dental sejam menos frequentes que a recessão gengival, visto que a gengiva geralmente sofre um estímulo constante, por exemplo, o piercing no lábio inferior, na maior parte do tempo, está em contato com o tecido gengival dos dentes anteriores, enquanto com relação aos dentes, a fratura ou desgaste depende mais da intensidade do impacto. Além disso, a gengiva é um tecido mole quando comparado ao tecido mais rígido do corpo humano, o esmalte dental.

Uma pesquisa com 966 membros entre 18 e 21 anos da Instituição Dunedin Multidisciplinary Health and Development Study, na Nova Zelândia (NZ), associou o uso de piercing corporal às características sociais, personalidade e comportamento sexual que consideravam a perfuração do corpo uma expressão corporal de si próprio. No total, 183 participantes (9% homens e 29% mulheres) apresentaram piercing em outro local além do lóbulo da orelha. Foi maior a incidência em pessoas que não moravam na NZ ou descendentes Maori. A renda e a taxa de desemprego não mostraram relação com o uso do piercing. As mulheres avaliadas mostraram-se emocionalmente mais negativas e com maior baixa autoestima; apresentaram atividade sexual no ano anterior com 5 ou mais parceiros ou algum envolvimento homossexual incluindo contato genital, quando comparadas às que não apresentavam piercing. Nos homens, a associação com o comportamento sexual não foi significativo. A teoria do comportamento sexual relacionado ao uso do piercing foi comprovada pelas mulheres nesse estudo5.

A paciente apresentou naquele momento apenas a fratura dentária, não se queixando de infecções ou hemorragias na área da lesão, e descreveu edema e dor após a perfuração. Ao realizar o exame clínico percebemos que a paciente aparentava ter menos idade que a real, devido ao físico e à voz infantilizada. Tais características nos mostraram que a intenção dela ao utilizar o piercing era parecer mais velha e "descolada", mostrando possível baixa autoestima, relacionando assim ao estudo realizado na NZ.


CONCLUSÃO

O uso de piercing na língua, assim como em outros sítios bucais, leva a complicações imediatas e posteriores.

A utilização de piercing corporal serve como expressão da personalidade, buscando aceitação do grupo e demonstração de atitude descompromissada.

O tratamento restaurador, minimamente invasivo, com cerâmica, se mostrou eficaz, estético e funcional, de custo acessível e com aceitável longevidade.

O profissional de saúde, no geral, deve orientar e apresentar as possíveis complicações e intervindo quando necessário.


REFERÊNCIAS

1. Escudero-Castaño N, Perea-García MA, Campo-Trapero J, Cano-Sánchez, Bascones-Martínez A. Oral and perioral piercing complications. Open Dent J. 2008; 4(2):133-6.

2. Firoozmand LM, Paschotto DR, Almeida JD Oral piercing complications among teenage students Oral Health Prev Dent. 2009;7(1):77-81.

3. Levin L, Zadik Y. Oral piercing: complications and side effects. Am J Dent. 2007; 20(5):340-4.

4. Kloppenburg G e Maessen JG. Streptococcus endocarditis after tongue piercing. J Heart Valve Dis. 2007 May; 16(3):328-30.

5. Skegg K, Nada-Raja S, Paul C, Skegg DC. Body piercing, personality and sexual behavior. Arch Sex Behav. 2007; 36(1):47-54.










1. Aluna de graduação da Faculdade de Odontologia da UERJ
2. Professora orientadora; Professora Dra. Adjunta da Faculdade de Odontologia da UERJ; Mestre em Odontologia/Dentística pela UERJ ; Doutora emOdontologia/Dentística pela UERJ; Coordenadora do Projeto de Extensão. Reabilitação social do sorriso de adolescentes de baixa renda
3. Professor orientador; Professor Dr. Associado da Faculdade de Odontologia da UFRJ; Professor Dr. Adjunto da Faculdade de Odontologia da UERJ; Doutor em Odontologia/Clínica pela UFRJ; Pós-Doutorado pela PUC-Rio - DCMM; Chefe do Departamento de Dentística da FO da UERJ; Coordenador do Curso de Doutorado em Odontologia/Dentística da FO da UERJ; Coordenador do Projeto de Extensão e da Disciplina Clínica de Saúde Oral do Adolescente FO da UERJ

Mauro Sayão de Miranda
Faculdade de Odontologia da UERJ - Departamento de Dentística
Av. Boulevard 28 de setembro 157 - Vila Isabel - Rio de Janeiro, RJ - Brasil
(msayao@gmail.com)

Recebido em 31/07/2010
Aprovado em 23/11/2010
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